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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Trilhas



Coração ardeu.
gelou. Estancou de tanto se camuflar
E quanto mais se respira fundo, pesa o ar
em breu.

Julgou. Ferida,
cismada a sangrar, abriu
e veneno surtiu.
Tornou-a haurida.

Fez-se a razão.
E de tão clara a luz doeu,
corpo erguido tremeu,
olhos foram ao chão.

Tormento!
Vê as pegadas enviesadas.
Inspira certezas engavetadas.
Em tempo...





.




sábado, 1 de fevereiro de 2014

Dasventanias


Não calou-se à primavera.
Ela era vento e já fora espera.

Era desabrochar de vontades
Num voo livre e solto,
Sem que precisasse impor verdades
E certezas, nem um pouco.

A menina não justificou-se:
Do grito, calou-se.

Só precisou as mágoas desenterrar
E soprá-las aos ventos em rodopio.
Ai, das dores, pode desapegar
E partir, do porto-aguardo, em seu navio.

Diriam que era insano seu intento,
Mas só os que não viveram seu lamento.

Pois era primavera, e se pudia renovar.
Não era flor, nem luxúria, nem singela,
Apenas plenitude em se  libertar:
Tornou-se apenas vento, o que era ela.


.Para Juliana.


quinta-feira, 7 de abril de 2011

Anônimos



Como sangra
O corte
Castiga
Fustiga meu norte.

Sorrio/minto
Atrás do escuro
Que eu sinto
E não curo.

Não chama
Desabilita a voz.
Re-clama
Caminho atroz.

Faltam
Sinônimos
Saltam
Anônimos.

Acabam frases
Intimidam-se
Frente aos ases
Caminham se...

...forem jogados
Ao mar
Calados.
Pra navegar.

Porque grita
Muda a dor
Que imita
Prisma-explendor.

Falha e finda
Se insinua
Cisma ainda
Continua.


*Imagem: Pintura de Van Gogh



quarta-feira, 23 de março de 2011

Nauta


Nauta que em pleno mar toca tua cítara,
diferente de tudo que dantes vi nos echos
da fleuma, teu semblante furor imita
a embriaguês e mistério dos arabescos.

Neste mar no qual eu submerso rés
Murmurei pra ti um verso dos ‘santa-lúcia’
Apenas para criar um lied nas marés
Na ânsia de diminuir o vácuo que vem pela angústia.

Não existem caminhos certeiros, nem errados.
Todos são passagens que a tempestade enleia
Mas eu permaneço sempre seguindo em nados.
As truculentas passagens que o desejo norteia.

A nota do meu canto harmoniza o uivo da ventania
Se as palavras o tempo destrói, Poseidon, a me guiar,
brame e aumenta meu sopro de vida e calmaria.
Aceno e sorrio. Sempre há caminhos pelo mar.

A vida já nos contou tantas histórias assombrosas.
E dentre estás marcas e sorriso dos caminhos
Já criaram tantas bussolas aleivosas
Que hoje caminhos são feitos sozinhos.

Nauta, tu segues ao leme tua cruzada junto ao mar,
visto que teu sorriso é o farol que abre a bruma.
Eu conheço bem as profundezas e não ei de me afogar.
Mesmo que eu permaneça alguns dias sem ser tua.

A transparência das águas
guardam mistérios que os anjos não vêem.
E perdido o canto da serei nas ondas.
A dor também desaparece no céu.

Os anjos apontam flechas no mar
Pairando com suas asas abaixo das nuvens.
Ouvem então a canção da sereia
e caem embriagados nos corais.

Porque nem sempre, Anjos são anjos

sexta-feira, 11 de março de 2011

Monocórdio



 O som monocórdio por ti jogado pelo regato da lembrança,
Não me sai da memória, e sim, me fustiga de assalto.
E do lied rouco o teu olhar violento me pede esperança –
Pálido nauta que surge da nevoa a brincar no mar alto.

Silencia na luz barroca da madrugada célere a chuva
forte, que nos impede de partir mais cedo. E ainda trame
contra nossos desejos de solidão esta dionisíaca noite turva!
Onde pedes que eu cuide deste cerne que dimana teu sangue.



Imagem:
Peace - Burial at Sea: 1842 de William Turner

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Minha Estátua.



Eram teus flancos pálidos, de gentis curvas
Minha estátua de gesso! Em prazerosa fúria
Que bailavam cálidos (e a visão ainda me turva)
Por entre as sombras da luxúria.

E posso eu ainda te esquecer?
Aquela magnífica imagem da luz
Fulgurante que vinha me aquecer.
Como não cultivar o que me conduz?

Sob o céu das trevas, tu rias morta de amor -
Toda’quela magia ainda me seduz -
Como não pensar em beber o calor
Do seio alvo teu, quem em desejo me pus?

Ofegante, de tua doce feroz boca vinha o suspirar.
Qu’eu noite após noite em ansiedade tenebrosa
Maculei-te, só por pensar em me deitar
Sobre tua pálida e sensual pele formosa.

Por não alcançar-te além do sonho da cova
Derramo meu sangue – Oh, doce feiticeira.
E enveneno-me sobre tua eterna e pútrida alcova.
Entregando-me a solidão como ao vento se vai fina areia.

Tudo, pois te vi em negro vestido e véu
Carregada em teu caixão da madeira de cedros,
E trancada solitária, após simples reza, neste gentil mausoléu,
Que me permite jazer aqui, entre flores e arvoredos.

Oh, tua estatua perfeita de olhos e belos cabelos
Castanhos como esta terra que te cobre feito manto.
Oh, funesta deusa, por que a mim apareceste pelos
Ventos frios e úmidos como se mostra meu pranto?

Por que banhaste-me com o orvalhar da alma tua,
De forte aura e semblante sério, mas cheio de amor?
Por que mostrastes aquelas alvas mãos tuas
Colocadas sobre teu colo só pra eu sentir tua dor?

Enfeitiçado pela fria magia funesta que tu cantaras,
Eu sozinho me deixo morrer na frente de teu escuro lar,
Por causa da dança que – eu juro – tu dançaras
E embriagaste-me neste som sutil e horroroso de folhas a farfalhar.

É este soprar dos ventos que me atormenta.
Ah, perfeita deusa do negror de meu pesar.
Graças a ti meu sangue se esvai de forma lenta
E as asas da morte já vêm me buscar.

Sobre o perfume das flores encontrar-te devo!
Aguarde – eu choro ansioso – minha deusa – por beijar-te.
Quero breve reconhecer a cor de teus olhos e sentir teus relevos
Mesmo que seja com a alma, para não macular-te.

Em desvairada loucura ver, então, tua imagem.
Ah, como me encanta este escuro profundo – tu danças.
Meus olhos fechar-se vão diante de tua mensagem
Que canta numa melodia obscura de matança.

É, por ti, donzela, que rogo à carnificina do meu ser.
É por ti, meu amor pálido, que eu grito.
Seguirei por entre as baixas trevas de suicidas para ter
Teu verdadeiro semblante e eu deixar de ser aflito.

É por ti, alma lúgubre e cálida jazida
Que meus olhos se fecham, sem pensar
Em algo mais que ti, eternamente para vida,
Eu deixo tudo aqui e busco-te no meu sepultar.

Oh, minha bela e pútrida rainha n’alcova.
Vou a ti, feiticeira do amor, pela morte sobre teu peito.
Pois noites a fora visitou-me em sonhos e chamou-me a tua cova.
Eu morro, ah, meu tenebroso amor perfeito!

Vou a ti morrer: linda estatua de gesso branco.
Por ti jazer – fria e morta princesa.
Depois de tanto derramar sangue e pranto,
Humilho-me a ti, fúnebre moça, que és das trevas realeza.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Sobre teu túmulo

(escrito a cerca de cinco anos)


Goteja no túmulo frio a minha solidão.
Goteja o sangue da paixão.
Entre o negror da noite densa,
Meu sangue mancha o mausoléu,
(enquanto suspiro e lacrimejo ao léu).
Arfa meu peito numa dança lente.
Tu, amor lascivo e sensual,
Tens teu corpo agora putrefato,
E toda aquela palidez bela e sem igual
Hoje jaz num caixão compacto.
Mau choro lava minha alma da agonia
Respiro o cheiro de teu eterno lar,
Junto com flores que colhi sem alegria.
Ah saudade, como eu sempre vou te amar!
Mesmo qu’eu viva sempre triste,
Meu sangue ainda corre por ti, estou desesperada.
Deitada sobre teu sepulcro, a dor persiste.
Eu miro o céu escuro e a lua prata,
Sozinha eu degusto da angústia e da febre,
E ao molhar lábios e todo o rosto com choro
Tento respirar profundo, sem que se quebre
As taças frágeis que guardam o decoro
Que fingíamos possuir depois do fogo.
Ao lembrar eu choro por desafogo.
Ah quanta saudade eu sinto!
E quantas lágrimas de sangue vou derramar
Perdida em dores tenebrosas deste breu?
Mas comigo, eternamente, vou te carregar,
Sempre, como uma doce lembrança, teu riso,
E sempre, como nódoa feroz te sepultar.
A vela do amor sempre iluminará teu sorriso
Firme em minha memória.
Teu semblante jamais se apagará em mim,
Então vai nascer da nossa história
Uma grande árvore de luz sem fim,
Aqui sobre a tua sepultura,
Onde teu corpo dorme como uma escultura.
E as flores serão filhos nossos
Que eu prometo com amor cuidar,
E dos amores dos nossos votos
E lembranças tuas eu vou regar,
Para quando a tristeza, enfim, me levar
E as asas da liberdade vierem me buscar.
(enquanto meu sangue de mim fugir),
Espero, a ti, chegar.
Verei de novo teu sorrir
E nunca mais vai me deixar.
Com esta dança lenta,
Deste arfar do peito meu:
- Ah!Como me atormenta –
E com o sutil balançar dos quadris meus
Vou macular teu sepulcro com a luxuria.
Já os beijos que dou à noite para serem teus
Vão deixar aqui o meu amor,
E por todo esse cruel esplendor
De tristeza, medo e louvor,
È pra que possamos aceitar
Nosso destino de chorar,
Mas talvez se eu me tornar
Amiga desta saudade que mata-me,
Eu possa erguer-me, levantar-me,
Dar a mão à tua alma,
Retomar pelo medo a calma,
E em valsa fúnebre, harmoniosa,
Sob o brilho das estrelas na lua,
Eu me sinta entre a melodia formosa,
Ai, possamos dançar e eu ser tua.
Mas nem que o fogo dos céus
Venha queimar minha carne cálida
(e me dêem como da vida um réu)
Continuarei triste e pálida,
Deixando lagrimas a jorrar.
E sobre este triste fim, teu sepulcro,
Eu juro,
Em meio todo meu medo obscuro,
Juro nunca deixar de te amar

terça-feira, 13 de julho de 2010

Cinza


Hoje...
O dia estava lindo.
Ar que espera chuva.
E choveu.
A paisagem vestiu suas vestes acinzentadas.
Nubladas.
Perpétuas.
Eu me senti mais viva, me senti viva mais uma vez
entre a neblina, a chuva, o vento, a garoa.
E tão cinza como filmes em preto e branco.
Feito os anúncios de jornal.
Cinza.
Feito grandes prédios sem tinta
Ou como o metro e carros que pintamos de cinza.
Cinzas.
E lavamos as almas, as respirações.
Eu me entreguei ao prazer de ver, de olhar
e continuou tudo cinza.
Foi mesmo um lindo dia.
Todo acinzentado, ensimesmado.
Turvando as luzes da metrópole
São novos pontos de vista
(um em cada gota de chuva).
Pontos e ponteiros do relógio.
Gotas de remédios, gotas de chocolates.
Pontos em gotas. Prismas!
Sem coloridos.
Todos adormecidos.
Asfalto cinza. Sofá cinza.
Cinzas de algum cigarro.
Cinzas entre o preto e o branco.
E no meio da chuva e da ventania
paira o silêncio quieto, cismado.
Ele luta pra ser ouvido
nesse lindo dia cinza que foi...
Hoje.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Tolice


Tens razão meu amigo. Eu não sou confiável.
Eu me perco com grande freqüência, eu distorço emoções.
Eu sinto tanta dor, e ela logo passa inigualável.
Sinto tanto amor, mas ele se derrete sem condições.

Mas meu coração não. Esse se destrói e se reconstrói
Como mar que te molha os pés e se vai sem dizer adeus, sem avisar
Ou uma melodia de Chopin, Mozart, me corrói.
Mas não volta, só quer pra sempre navegar.

Eu me camuflo no meu medo. Eu sou uma criança frágil e cruel.
Eu nasci para conselhos, para felicitar e para comemorar.
Eu não nasci para o amor. Eu nasci para suportar a dor e o fel.
E, talvez, devesse então calar-me sem antes mais me afundar.

Eu não mereço nada de ti. Nada. E não insisto.
Se me desprezas, ainda devo me satisfazer com o luxo que é teu desprezo.
Se me encantas, eu desisto, se me queres longe eu persisto.
Mas nunca persisto de mais. Eu logo parto sem ensejos.

Eu gosto de partir (além mar), mas não gosto de partir (qualquer tipo de espera).
Ninguém merece esperar-me. Qualquer luz já se pôs.
Eu não sei voltar. Pois se um dia eu soube amar, foi-se em outra era.
Levou consigo e se foi (pra sempre, o amor, a capacidade, os dois).

E falo tanto de mim. Quanta pequenez e mediocridade.
Me desnudo, pois nada pode me dar novamente à luz do brio.
Se me disseram que mereço a solidão. É sim parte em verdade.
Se eu acredito, não mais, e talvez, nunca mais. Vazio!

(Para melhor conviver, vou me esquecer.
Meus fictícios personagens são humanos muito melhores do que eu).
E não há nada para dizer.
Nada, e eu já sei. Adeus.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Ecos Natura




Nós contamos tantas estrelas em tantos anos e descobrimos os deuses.
Nós dançamos em rodas e em rodas em volta das fogueiras cantamos nossas paixões, nossas vitórias e nossas alegrias.
Em cada refrão de nossos sonhos, as pequeninas fadas vieram iluminar a escuridão das florestas.

E durante infinitas eras nossos ecos ecoariam, para além das florestas, pelos mares, em cada pequeno canto do vasto mundo.
E a cada horizonte vencido, nossas rezas pagãs e nossas canções de paz tornariam cada pequeno vilarejo mais harmônico.
Os deuses finalmente felizes descansariam e sobre nós apenas seus dons nos seriam trazidos como presentes através das chuvas e das estrelas cadentes.

Mas depois da tempestade e da ira, só o que nos restou, foram ouvidos surdos para nosso canto e corações apáticos para nossos ensinamentos.
Não poderia haver mais paz sem que houvesse alguém capaz de ouvir nosso canto e entender que nós falamos de algo dentro de cada um.
Algo que pode aquecer cada desesperado e cultivar a justiça em nome dos deuses.

Depois de tantas batalhas que esmagam o som de nossas canções, quase não há mais força em nossas veias e nem brilho nos olhos.
Não sabes para onde ir, ou para que continuar nesse truculento caminho construído.
Para que?
Mas se fecharem os olhos de todos e o único som a repercutir fosse o ritmo cadenciado da batida dos corações, nós poderíamos novamente ascender a fogueira e lhes dizer novamente, sobre as eras de contar estrelas nunca registrada.

Tens construído estradas que não levam a lugar algum que realmente possa se desejar estar.
Quando estar em roda perdeu o sentido, não há mais sentido para navegar pelas longínquas águas da alegria.
São como pequenos pássaros voando solitários, são peixes brilhantes ganhando águas escuras que não podem ser partilhadas.
São como uma sinfonia nunca composta ou uma poesia nunca escrita.

Mas nós ainda estamos cantando, ainda esperamos que alguém desnude-se das avarezas e dos julgamentos, e dentro de seu peito deixe-nos acender a fogueira.
Para cantarmos em roda e em rodas possamos nos tornar como um único corpo.
E finalmente os deuses nos tragam a dádiva do amor, da justiça e a paz.
Através de cada gota de chuva, estrela cadente e raio de sol.



Imagem: “A Parábola das Dez Virgens” de Friedrich Wilhelm von Schadow

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Lume Eterno



Vou aquecer teu coração e tuas noites
Mesmo que eu precise de todo meu calor e alma.
Ei de levar-te comigo através das ondas do tempo
E para onde o destino guiar os passos
Mesmo entre a tempestade e a neve
Na mais profunda escuridão e trevas
Eu não largarei tuas mãos.

Quando os uivos mórbidos da noite ousarem dizer-te ao ouvindo
Qualquer palavra que te cause medo
Eu vou te proteger e te colocar ao meu lado.
Caso o caminho entre a floresta truculenta
Venha cansar-te, eu caminharei contigo em busca de abrigo.
Porque mesmo na mais profunda escuridão e trevas
Eu não largarei tuas mãos.

Eu vou fazer com que teus sonhos se tornem realidade
Transformarei os castelos de areia em fortalezas do tempo
E pra cada dia que o vento soprar nossos rostos
Eu vou olhar nos teus olhos para transpassar pela eternidade.
Como as folhas no vento da madrugada
Assim como na mais profunda escuridão e trevas
Eu não largarei tuas mãos.

Se sangrares, ei de curar-te com meus carinhos e cuidado.
No teu caminho e para as tuas vitórias e felicidade
Eu cantarei noite após noite para teu sono e descanso
Acenderei velas para iluminar tua tranqüilidade
E te aconchegarei, de forma que teu sorriso nunca te abandone
Pois na mais profunda escuridão e trevas
Eu não largarei tuas mãos.

Eu não largarei tuas mãos, não importa quão escuro fique.

domingo, 2 de maio de 2010


Quero olhar nos teus olhos vítreos e verdes feito a selva, a chuva sobre o lago cristalino das verdades simples de existir.
Assobiar nos teus ouvidos feito vento, feito suspiro e sonhos.
E me destruir e me renovar para o teu colo.
Existir nos limites da tua existência.
Afogar-me nos teus lençóis, na tua imagem e sobre teu corpo derreter.
Quero te amar nas manhãs como se fosse todo esse tempo o único tempo e o tempo infinito. E todas as noites como se fosse a última cada uma delas.
Quero morrer no teu colo para você morrer no meu ventre.
E sobre todas as pálidas faces da rotina, quero brilhar de fogo nos teus lábios.
Colar teus lábios e tua pele como outra tatuagem, e fazer do teu suor meu perfume.
Entrelaçar meus cabelos na tua barba mal feita e recém desperta.
Aquecer minhas pernas nas tuas pernas.
Penetrar na tua alma pelo teu olhar e pela tua língua.
Viver para dissolver-me em transpiração e juntar cada partícula tua em um mapa a desvendar até familiarizar teus poros à textura da palma dos meus dedos
(e olhar e lábios e tudo o mais).
Despir-te dos medos, das inseguranças e das vestes.
Fazer do teu corpo e da tua alma meu abrigo, e fazer de tudo que é meu, um dos meios de te fazer feliz.
Tudo, pra tentar matar esta saudade, esta vontade de ter-te o tempo todo, como se fosse todo esse tempo o único tempo e o tempo infinito pra eu permanecer mergulhada nos teus olhos vítreos e verdes.

terça-feira, 23 de março de 2010

Lieben und nur Lieben*



Vozes no peito confuso sobre ti, meu amigo distante,
Alimento desta minha alma - sonhos e a vontade -
Que fortalece a espera do meu eco viajante
E fere o coração confuso entre a casta e leal amizade.

Pernas bambas. Seguro-me nesta insegurança e tento dançar
Vontade de te observar, desbravar teus caminhos e cantos,
Teus olhos, teus lábios, tua barba pequena para eu acariciar,
Tuas verdades, tuas histórias, teu sorriso pelo qual torço tanto.

E longas noites percorrer a estrada de conhecer-te.
O coração pulsa, as mãos tremem. Balançar no suor frio.
O que era um querer sentir, cavalheiro, é hoje querer ter-te
E deixar-me levar pelas tuas virtudes como ao leito de tênue de rio.

Eu preciso te ver, te conhecer, e no olhar dos olhos teus
- ao deliciar-me na atenção aos teus contornos da face –
Sob suas sobrancelhas, pra que tu possa ver nos olhos meus
o tamanho do brilho diante de teu semblante que me enlaces.

São tuas palavras, tua força, tua busca pela vitória nos prélios,
Teu “Eu” que escondes de tantos, mas me parece, me descreves.
É por ele – esse teu inteiro - que me apaixono fazendo luz ao mistério
Que aos poucos pretendo lhe revelar, sem dominar-me pela febre.

Pois tu és um, por quem eu me apaixono e aquele que almejo.

Pernas bambas. Seguro-me nesta insegurança e tento dançar
Vontade de te observar, desbravar teus caminhos e cantos,
Teus olhos, teus lábios, tua barba pequena para eu acariciar,
Tuas verdades, tuas histórias, teu sorriso pelo qual torço tanto.

Pois tu és único.


*Amor e apenas amor.
Imagem: Shiryu, pelo que ele representa e para lembrar de um tempo onde as fantasias da infãncia se concretizavam, de uma forma, ou de outra.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Vastidão



No cais do porto, em fila ou dispersos, corações aflitos fitam o azul titânico.
As vagas sob as caravelas dançam incessantes assim como o vento.
E as embarcações que lhe parecem fortes aos olhos surpresos e dinâmicos,
São pequenas folhas frágeis nas ventanias do oceano em cruel movimento.

Sempre há os que sobem os degraus das tabuas para o futuro incerto
Por escolha crêem nas promessas e riqueza de valor imenso e seus delírios
Mas tantos garotos que à força sobem sem saber de seu pesar intenso.
E que abusados, forçados e tristes se esfregam no convés de seus martírios.

E são tantas mortes, tanta dor que lhes cerca, que quase lhes finda
A esperança e a crença na nova terra de outros sóis.
Mas sua imaginação o guia – Oh navegadores em exatas ilíadas -
Para o merecimento de grande honra por vencerem o mar atroz.

Ah! Delírio - No peito arde aquela saudade dos pés firmes no chão
Ah! Fantasia - E de tantas belas damas, senhoras e senhoritas...
Dor profunda - Seus amores deixados na sua terra de grande paixão
Sonhos náuticos - Orando para a benevolência de Netuno – musas aflitas.

E grita na garganta o medo e a insegurança das profundezas
Se há sereia que de cansaço lhe vença, destrua e roube o animo.
Apenas bússolas e mapas falhos, coragem e rudeza
Para vencer a fúria das tempestades quando o mar se exalta magnânimo.

Imaginação. A mente turva como a cristalina água sob suas incertezas
Belos e joviais corpos fortes diante o mar desejam carinho e tranqüilidade.
Suscitando em seu peito entre a vasta imensidão dos dois azuis de tênue leveza
Um horizonte vindouro além dos perigos entre as vagas espumantes prateadas

E canta tua melancolia entre o canto das ondas nas cascas de suas naus e erra
Também entre o canto das aves ligeiras que lhes acompanham desde a partida.
Albatrozes imensos que reinam nos ares e lhe trazem lembranças de sua terra
Onde a lua aconchega seus males com o auxilio de alguma doce bebida.

Ah! Delírio - No peito arde aquela saudade dos pés firmes no chão
Ah! Fantasia - E de tantas belas damas, senhoras e senhoritas...
Dor profunda - Seus amores deixados na sua terra de grande paixão
Sonhos náuticos - Orando para a benevolência de Netuno – musas aflitas.

O mar ruge na proa de suas vidas, e muitas vezes parece fim não ter.
O leme é forte e no veleiro o vento valsa em torno de toda sua vastidão,
Tamanho desvario dos caminhos desconhecidos no léu a percorrer.
Mas segue sempre forte no dantesco insano trilho de sua missão.

Chora e sofre seu peito, ao mesmo tempo em que agradece o sol na nuca e o vento.
Sem tempestades a respiração alivia, e finalmente enche o peito com ventura.
O cheiro do mar, o vinho, o limpo céu e as boas histórias lhe servem de alimento,
E seu espírito de júbilo e contentamento se enaltece em brilho digno da natura.

E voltam a perde-se em devaneios saudosos, esposas e filhos em terra os perdoa..
No alento do coração forte que supera a violência de tantas vezes escondido chorar.
Ama com arfar a vida e as boas lembranças que lhe mantêm firme na proa.
Pois nas turbulências das ondas nunca se sabe ao certo o fim de seu navegar.

Ah! Delírio - No peito arde aquela saudade dos pés tendo onde firmar
Ah! Oceano – traz nesta nova terra um grande motivo pra tanto pesar.

sábado, 12 de julho de 2008

Luz




Quantas vezes li e reli a mesma cena?
Busquei pr’a não consumir-me em dor, alívio.
D’outro tom qualquer outra luz amena,
Que clareasse e desse-me vida à nova face em meu abrigo.

Quis deixar rolar meu pranto e revelar meu encanto
Desta vida ambígua, onde sonhei dar-te o corpo meu.
E entre estas noites quentes, meu suor de volúpia é tanto,
Que me pesa deixá-los, oh desejos! Em meu sono quase ateu.

Viste que víbora traiçoeira me picara pela manhã,
Quando a noite cai, tua filha torno-me. Híbrida!
Cultivo no meu seio um rosário rubro, e sã
Eu te vejo me ferir com teus espinhos de ponta gélida.

Memórias sufocam-me com seu antiquário empoeirado
E a mesma cena revela-me o canto, o medo, esquecido sorriso.
Amor puro por tua essência é inspirado
A mesma história (da voz de gralha insípida) se repete, meu amigo.

Nada mais não mais me tornará o leite ou o vinho,
Beberei só do que por direito me é provido.
Do pão qu’eu como, alimento, pro dia sozinho,
Ceifar-me do prazer (teu colo, ou seja) me é devido.

Qu’esta luz me acendesse, azul ou rosa magenta
Pintaria eu, teu retrato, que te és merecido ser infinito.
Pelos teus dedos, a passar, com suavidade tremenda,
Eu deixaria manchar minha face (à tua vontade)
Desenhando um labirinto.

Refaz-se no meu peito o madrigal de vidas.
Rejubila em meu pescoço teu aconchegante respirar
E no meu peito e rosto teu sublime olor, dúvidas?

Apaixonar-me é tão inútil quanto te adornar:
Vela acessa sob o sol do meio-dia alegre, vivente,
Enquanto permaneço, na perversa escuridão, triste somente.

Na penumbra nenhuma luz se faz surgir,
Ao contrário, és tu que vais a me deixar aqui.
Ao contrário...


(escrito em meados de 2006)

Artemis





















Procuro fotos nas gavetas.
Nas gavetas do tempo e da memória eu procuro imagens tuas
Para lembrar-me do teu semblante e do azul plácido brilhante dos teus olhos
(ou seriam castanhos?)
Terra castanha do sítio que é teu cabelo, areia branca fina da praia que é tua pele.
E o vestido que é cobertor, donzela. A coberta que é vestido.
Água do banho que é cachoeira, teu canto sereia, teu canto.
Hiato de sons e murmúrios que perambulam pela casa.
Minha velhice que sossega a irá.
Procuro nas gavetas, teu pente ainda tem um fio prateado:
A marca do tempo e da saudade.
E fotos, não há.
Qual era a cor dos teus olhos? Qual era? Qual era teu cheiro, amor?
Que o perfume já secou e amarelou os livros.
Páginas dobradas, anotações, filosofias.
Livro de receitas, romances e virtudes.
Características e pesares.
Pingente de lua, brincos, pulseira e anéis.
Um broche dourado que tu nunca usaste.
O rótulo de um vinho, poeira.
Procuro fotos nas gavetas.
Sem eira nem beira.
Camisola, lingerie, velho, decrépito, tudo cheira a mofo.
Tudo que pode caber em uma gaveta, coisas que não ficam na memória.
Nome que confunde com apelido carinhoso.
Moedas que não valem mais.
Ah, Artemis. Fugiste,
Não lembro, não lembro, não lembro.
Mãos enrugadas que não seguram nada.
Memória falha de onde tudo escapa.
Fugiste Artemis, fugiste.
Caixa preta caída atrás da camiseira.
Peito que lateja, olhar que lacrimeja, mãos tremem, amiga.
Que saudade de você. Que vontade de lembrar o teu rosto.
Recortes de jornais, velhos, um pouco rasgados.
Passado cruel sempre volta, feito gosto de fel que não sai da boca.
Violência dama, sem pena, cem cortes, devagar, lento, profundo.
Cem cortes, na memória das notícias sem cortes.
Recortes de jornais, óbito.
Procurando as fotos nas gavetas, só uma: “Preto e branca”.
Sem cor dos olhos teus, sem cor do teu cabelo.
Jovem era. Então o fio branco no pente é meu.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Anátema




Uma mácula do apodrecimento.
A expulsão e o sofrimento.
A saudade e o medo não são mais inimigos.
Maldição, as dores e os castigos.
Um poema com meu sangue escrito.
Vinhos e lagrimas,
Tempestade lá fora regando minhas lástimas.
Expulsa!
Pelo portal dos sonhos,
Adentrei em meio às nevoas,
Trevas desta insignificância.
Devota do inferno do arrependimento.
Esta contido na minha vida um manuscrito.
Anátema, meu castigo.
Mácula da imperfeição.
De lúbrico a esconso
Ocultando o jovem ancião,
Que à mansão dos mortos me levou.
Anátema, cruel e perpétua,
Dissolvendo com gritos de dor, meu coração.
Berros solitários, gelando minha pele nua
Sendo cortada com facas flamejantes,
E o suicídio rindo de mim distante.
Anátema, maldade e matança;
Anátema, trevas à lealdade;
Anátema, louca desesperança;
Anátema, fim dos séculos...saudade;
Anátema, fim dos sonhos de crianças;
Anátema, mancha de sangue e sofrimento;
Anátema, sozinha, oh morte, eu te lamento;
Anátema...


Uma de minhas primeiras poesias, quando
 aos quatorze anos, me aventurava a escrever.

domingo, 26 de agosto de 2007

Devaneios Inconsequentes



Devaneios inconseqüentes, minha cara!
Quem mais diria desta forma tua esperança?
Que maior vontade te iluminara
No despertar da tua sagrada infância?

Nenhum motivo que te guie ou perfume.
Quem te carrega é tua injustiça.
E não mais lhe proverá o lume
Para teu doce cheiro sumir e tornar-se carniça.

Nada criança, é como tua vaga menção conduz.
Desnudas a carne e o peito oprimido na névoa.
Cobre apenas tuas madeixas com negro capuz,
Para que não te enforques nos cachos das trevas.

Perdoa, anjo, minha lisura desmedida.
Que a muito deixaras te cair no abismo
E a pouca luz do teu outono esta perdida.
Salta para teu acabrunhado lirismo.

Aprendes com os corvos, e te acometas na tua dor.
Impõe teu pesar e pesas esta vontade de sorrir
Que teu sorriso mais me mata que me traz calor.
Neste olor à dor de não poder partir.

Medes o tempo no asfalto e na calçada
Calas teu orgulho e me permite a mão fria.
Teus portões na mentira da paixão calada
Mentes e tomas meu amor por areia fina.

Das-me apenas esta face mascarada lazuli,
Gelada pelo ártico de uma profunda ambigüidade?
Não me aceitas ou me domina em tua buli
Julgas-me, anjo frágil de madeira, sem veracidade.

Deixais de turvações, cara, e te colocas em meu colo
Ou vai logo ao Demônio que devora graça tua.
Pois perder-te me é fúria e beleza de Apolo:
Visto que mata o verme e junto a beleza nua.

sábado, 21 de julho de 2007

♫



Não há lembrança alguma que poderia, o pesar, roubar-me
Nem mesmo o olor da flor mais frágil.
Nem mesmo a voz rouca da garganta seca de meus ancestrais fantasmas.
A vela não seria capaz, da alcova, iluminar toda esta espectral paisagem .
Minha mente cala-se no vácuo da noite, na calada do vento da montanha.
Na face rósea de Vênus, eu vi rolarem as pérolas deste amanhecer.
Para nunca mais ver quem me embriaga, Hécate tampou-me os olhos,
Mesmo que eu tentasse forçar a memória, o vinho que tombei
- à garganta para que me fizesse morrer sem culpa em quaisquer braços –
Corou-me as bochechas e me dilacerou a carne.
Como um bufão, tortuoso em meu andar, e com o corpo a balançar,
Deitei-me aos pés da Lua humilhando-me no folguedo dos nobres.
E do corpo torcido, manco, corcunda e com o rosto disforme
Arranquei em minha rudeza os cravos e jasmins.
Riram de mim todas as máscaras do teatro, depois de muito correr dei-me por vencido.
Não houve donzela que me amou, tampou um amigo a me aconselhar.
E os gritos, malditos rugidos no qual revelou-se minha besta.
Ah, fera! Colocou-me nesta jaula com meu comportamento nefasto.
Bruxa que me percebeu insensato,
Deixou-me aqui – com o gosto amargo de seu elixir –
Acorrenta-me, pobre palhaço, não há nada que me aprisione mais que a solidão
E nem maior vontade que me liberte, que alcançar uma migalha de pão.
- rolou da mão da dama jovem... caiu... mas não alcanço.
Que belo desejo poderia um bufão sem riso ter?
Se eu pudesse, cantaria para alegrar quem me cega.
Pois se o sol por ventura bate neste calabouço, é apenas o pendulo de minha agonia.
Que nem seu brilho vontade alguma me traz.
Nem memórias, nas quais eu pudesse me refugiar.
Maldito Rasputin, até o que havia neste coração levou.
Voou com o vento... se foi.
Quando durmo sonho com a jovem de cabelos castanhos ao piano.
Que indecência, nem saberia dizer se é minha esposa ou filha.
E se não for ninguém? Melhor que seja um vulto,
Como sou no pesadelo das crianças que com meu horror se assuntam.
Chicoteiam-me os cavalheiros, me pisam seus cavalos.
Eu cheiro a esterco.
Mas é um alívio nas horas de tortura poder sentir o cheiro da grama.
Minha morte vem ao poucos, e cada vez acredito que demore mais a chegar.
Pois quando penso em eternidade, lembro de uma saudade de alguém
Que pode não ter existido, e a sina de nunca ter amado.
Mas se é noite de festa, eu posso me aliviar.
Mais uma vez me embriagam, e mais uma vez eu me humilho para Lua.
Talvez Vênus tenha pena de mim, pois sempre vejo suas lágrimas no orvalho.
Tenho dormido todas as noites sobre meu próprio sangue,
As feridas não cicatrizam...
Daí nenhuma lembrança... nem a voz baixa do padre.
Encomenda minha alma ao diabo, velho, que esta face horrenda
Não merece repousar ao lado de Deus.
Turvou-me a visão, o vinho, e destruiu-me a razão.
Sem saber de onde eu vim, só conheço a canção dos camponeses.
E fiz dela algo meu, onde eu canto feito tenor, e todos pensam
Que sou um anjo.

sábado, 9 de junho de 2007

O Sentido.



É sentir na pele o vento frio,
Ver a verdade nos olhos de outrem,
Sentir que a luxuria tirou-lhe o brio.
Ver que só nas sombras há o além.

Ter medo de em cada passo pisar em falso.
E a adrenalina ferver-lhe a alma.
Com o sofrer prender-lhe em laço
Mórbido, onde se esvai a calma.

Jamais beijar o céu de amores,
Nunca vir a alcançar o sorriso,
Pois a tristeza lhe excita em louvores
E, da angustia vê sempre o riso.

E por mais loucos no correr em passos largos,
Não chega na ventura de feliz viver.
Só as lagrimas lhe acompanham com afagos.
De carinhoso, só tens, seu sofrer.

E ao correr deixa para traz,
Mais dor, mais medos, mais lágrimas.
E mais forte a solidão faz
Com que os prantos sejam dogmas
Para seu lamento voraz.

E assim vai ficar – chorar. Estar ai a sofrer.
Assim para sempre vai calar,
Vendo noutros olhos seu morrer.
Nesses olhos do funesto pesar.