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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Trilhas



Coração ardeu.
gelou. Estancou de tanto se camuflar
E quanto mais se respira fundo, pesa o ar
em breu.

Julgou. Ferida,
cismada a sangrar, abriu
e veneno surtiu.
Tornou-a haurida.

Fez-se a razão.
E de tão clara a luz doeu,
corpo erguido tremeu,
olhos foram ao chão.

Tormento!
Vê as pegadas enviesadas.
Inspira certezas engavetadas.
Em tempo...





.




terça-feira, 31 de maio de 2011

Corvo



As penas pretas, algumas ficam.
Como as voltas do relógio, o ponteiro da vida insiste em revisitar situações.
Me impede.
Sou fraca.
Insisto, continuo insistindo, mas o rio não corre livre seu percurso, ele seca, mingua.
Aguarda sempre a próxima chuva para se renovar.
Seus olhos me encaram.
Quando não me falta o corpo, me falta a mente.
Esvazio.
Carrega-me ao enfrentamento com seu olhar.
Entra em erupção o sangue por baixo das cicatrizes.
Faltam meios para a boca cuspir as palavras e forças nas pernas
pra subir os degraus no caminho.
O vento vem e me arrasta.
Me acompanha o corvo.
As folhas do outono são as poucas cores perante a frágil e débil iluminação da lua.
Eu não me reconheço,
mas reconheço o estado cataléptico no qual me encontro inerte.
Vazio preenchido de negror.
Ah, querido corvo que me tráz à mente a consciencia.
Poderia então levá-la?

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Existir em 12


Existe o tempo e sua medição precisa das horas e minutos, e existe o tempo preciso que fala por si mesmo e que só respeita sua vontade fazendo minutos em horas e horas em segundos.
Existe o vento que assobia melodias doces e amistosas, como também tempestades que nos devoram em sua sinfonia titânica, e o sol tênue ou feroz que nos deixa a seu bel prazer.
Existem os amores que nos deixam ao léu e os que nos aquecem no colo de um porto seguro para qualquer maré. E sempre existem as amizades.
Existe a falta, o desapego, o desassossego, a paixão, a vertigem, as ilusões. As utopias, as políticas, as demandas e quem comande. Existe a força, a ira, a revolta e – ainda bem que existem – as revoluções.
Existem os fazedores, as teorias, os teoremas, os paradigmas, as verdades absolutas e há quem não acredite e quem prefira não acreditar.
Existe um ser que não se encontra quando pensa, apenas quando sente e quando se entrega por completo ao que faz, e há quem se perca ao se entregar.
Existe o mar, a necessidade de navegar e há o saber navegar. E existe o oceano.
Existe o escuro da noite, o escuro do sono acolhedor e do pesadelo que quebra estruturas. O escuro da magia, do desconhecido, do irreconhecível, da cegueira e depressão.
Mas tudo existe no tempo, o tempo que pertence ao relógio, e nossa vida que pertence e existe no tempo. Tempo que não finda, mas se acaba, porém se renova e nos retorna como os ponteiros na dança cíclica de doze em doze.

sábado, 27 de novembro de 2010

Ode Triste (ao Teatro)



Dói. Uma dor que estende no tempo e consome quanto mais perto se aproxima a razão da existência dessa dor.
Uma dor de não pertencer, de estar distante, de não poder.
Dor de mãos atadas, pernas amarradas, bocas trancadas e costuradas.
Dor de algemas nos pulsos, que machucam, mas não rasgam ao ponto de libertar.
Fechar, trancar, deter.
Impossibilitar os atos e as atitudes que necessitariam reverberar no espaço.
Ser consumida pelos dias, pelo poder maior de não poder estar.
E repete-se. Feito um compasso fácil e nada frágil que tange na estabilidade da renovação das amarras.
E está longe.
Inalcançável aquilo que um dia tive em mãos, no coração, dentro do caminho e hoje, e novamente como no passado, não é, não vem, não pode.
Céu inalcançável. Uma estrela brilhante que reluz encantos. Prantos.
Me abandono, me tomo nos meus próprios braços por consolo, e sumo.
Desapareço do lugar desejado que não é meu lugar hoje, foi, deixou de ser, e foi, e deixou de ser, e hoje não é.
E choro, ora quase choro, entristeço-me, supero, tento.
É a dor que se assemelha a inveja, ao desejo, ao pecado de não contentar-se e mesmo assim aceitar o momento da dor. O momento de o coração gritar “Não quero” e da razão dizer “Eu preciso” e da alma balbuciar “Mas por quê?”
O que da sentido à vida, torna o lugar do sonho. Um sonho que é almejado no raiar do dia e no compasso das horas, mas que nem o sono é capaz de trazer.
A paciência, o que é o mal crível para criar o bem sólido.
Mas dói, o corpo se cansa das dores do espírito. E os suspiros insistem em sair.
Dói. Essa dor que parece não findar, que tem esperança, mas se cansa de esperar.

Colombina



A colombina esta cansada, seus pés não valsam mais,
seu vestido esta rasgado, a renda desfeita, a pele empalideceu.
Os palhaços não sorriem por trás da maquiagem, a bailarina tem fortes dores em seus pequeninos pés,
ela pisa em farpas.
 E quando chega a hora do circo partir e a tenda é desfeita os olhos desolados se ocupam com o caminho pelo horizonte.
A colombina esta cansada, ela não quer mais valsar,
lá se foi o circo, a brincadeira, a gargalhada,
a colombina não quer mais sonhar.
Chegaram os ciganos, e nas linhas de sua mão alguém leu que um palhaço triste
 roubou seu coração febril.


Imagem: Isabelle Adjani em "A Rainha Margot"


escrito em 03/06/2006

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Gato



É asfalto, concreto, rua. É abrigo da chuva pra eu matar minha sede da minha solidão. É meu canto que te acorda, é tua mão que me acaricia, mas meu guia é o instinto de estar sempre distante de me envolver. Fotografa minha presença que logo eu fujo sem aviso do refúgio que é teu colo pra eu dormir. E quando volto me percebe no caminho de passos leves e me conforta nesta cena sem cores. É preto e branco, bem simples, ancestral e ultrapassado como tua poesia sobre mim no papel pálido.

Fim de Tarde.


O sol arrasta-se, esta entardecendo. Sugiro ao meu fantasma que cante. Abrimos as cortinas, o cheiro da monotonia entra em nosso aposento, ele senta ao piano, e sua voz de tenor acaricia as paredes e meus tão machucados ouvidos. As lagrimas caem livremente em uma guerra que já desisti de lutar. Da janela, reuni-se à lied o vozear das crianças que brincam na calçada. As batidas do velho relógio de pendulo medem os compassos aos quais meus batimentos cardíacos se assemelham. Na estante a foto de meus pais, no apartamento ao lado, o chuveiro. Lá fora anjos me ignoram. Eu abaixo a cabeça e penso nos ferimentos da pele e nas cicatrizes da memória. O fantasma silencia sua voz, seus espectrais dedos se afastam do piano, sem barulho ele se aproxima e me abraça. Única companhia. Afaga-me e consente-me descansar no seu aconchego.

Príncipe das Trevas.


Apareceu-me em sonho, mais uma vez, querido! Sem que desta vez, em presença tu realmente precisasse estar. Num suspiro longo acordei, mas meu peito era oprimido e tive medo. Longe demais para que eu possa alcançar, entre mim e ti tem meu orgulho. Príncipe das trevas, tu deixas-te em minha pele um estigma que de tempos em tempos volta a sangrar. Schatten Herr, tudo era turvo em sonho, menos teus olhos densos nos quais mergulhei para tentar deixar o brilho desobscurecer e amenizar a raiva. Foi em vão! Agarrei em teus braços... tua presença era a mais forte graça da qual eu aceitaria, um dia, me comover. O que me aflige, é saber que tu és capaz de ter o mundo, mas luta contra quem não é teu inimigo. Quis acalmar tua revolta em meu colo, mas acredito que me tornei demasiadamente fraca, demasiadamente cansada. Não tenho armas para lutar em uma guerra por ti e necessito preservar o equilíbrio que ainda me resta. Tu eras todo o sonho do qual eu queria sobreviver ... (e de certa maneira, o pesadelo do qual eu tento fugir).

Ira

No meu peito o outono, ele chora o choro da vida que cai, balança no ar, suspira e espera. Sustento inutilmente a esperança e tento apagar da consciência esse grito mudo que corrói os nervos, essas palavras desafiadoras que ressoam dentro do crânio produzindo o eco da impotência. De braços cruzados e olhar perdido, qual Afrodite, tento sobreviver sem virtudes, mas ainda assim amo, mesmo que esse amor implique em fugir, refugiar-me entre os morcegos aguardando que a tempestade parta e leve para longe meu sofrimento, meu medo e minha ira, esse grito mudo.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Se me encantas...




Não sei se minha capacidade é suficiente para lhe plantar um sorriso no rosto.
São meus desejos sinceros e perdidos e confusos.
Totalmente inseguros. E eu quase não tenho palavras, me faltam impressões, respostas, idéias.
Uma sensação de mergulhar em um desconhecido branco, vazio.
Paredes de nuvens nas quais eu tento apegar-me e plantar sóis, gira-sóis.
Sem raízes se perdem (me perco) como fantasmas etéreos nos sons de sua voz longínqua.
Mas é apenas o cansaço, certa instabilidade e insegurança.
Medo.
E esse meu medo de me perder nos teus encantos.
Ah, e pudera eu, tornar real o sonho de lhe ter em sono ao descansar no meu colo.
Apaziguar tuas dores e te cuidar no cansaço e afastar os fantasmas, sejam eles quais forem.
E...
Dançar a dança no ritmo de sua voz
Embriagada pelo seu perfume e seu riso.
No prazer de desbravar através da sua risada
Os quereres escondidos sob sua pele.
E no ritmo da sua respiração
Brincar com sua nuca e sua graça.
Ganhar espaço na sua agenda e
No relógio biológico de suas vontades.
Beijar cada pequeno espaço de seus lábios
Como recompensa após o anoitecer.
És pirata que me roubou das águas.