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quinta-feira, 21 de julho de 2011

O Despertar



Manhã de Domingo.

Hoje as coisas estão diferentes, você sorriu pela manhã e foi gentil, eu vi seu sorriso se perder no infindo céu que seus olhos miravam cheios de ladrilhos da luz da manhã, sua voz soou como um veludo rosa e macio.
Seus ombros estavam perfumados quando você me abraçou e depois de muitos anos você me disse "Eu te amo". E eu pensei que novos rumos seguia o seu coração?
A manhã vibrava pela janela, era domingo e todos dormiam até mais tarde, lá fora só o barulho dos pássaros, poucos, mas eles estavam lá cantando a sinfonia do sol. Nenhum vento soprava, nenhum carro passava na rua, a música da manhã de domingo era o silêncio, a calmaria era palco para a sua luz, e comecei a amá-la novamente. Senti vontade de acompanhar seus passos enquanto rodopiava pela cozinha com seu copo de leite, cantarolando algo num volume quase imperceptível, só um murmúrio.
Os raios de sol eram reluzidos nos azulejos e nas grades da janela... grade. Um louco pensamento passou pela minha mente: um pássaro aprisionado canta até sua morte para o horizonte que não lhe pertence, enquanto um gato aprisionado agita-se, ferozmente defende-se e com suas garras prende a face de seu ameaçador, nasce o sangue e escorre pela pele do rosto.
Volto meus pensamentos para você, eu lhe olho e sua imagem se distancia enquanto seus pés descalços circulam dançantes e envolventes, o domingo vai tomando forma, lá fora já se ouvem as crianças rindo, na casa ao lado a mãe esta pondo o café na mesa, ouço o pai espreguiçando, as crianças correm de chinelos para a frente da televisão.
Você encosta-se à mesa e espedaçando em pequeninos pedaços o pão com os dedos, você saboreia como se provasse ambrosia.
Deus..., esta noite sonhei que vi Deus, ele segurava minhas mãos e ninfas dançavam ao meu redor, elas voavam como você parecia voar, a noite foi quente e acho que tive febre. Pensei ter visto sua mão enxugando meu suor, sua respiração quente estava no meu rosto. Não! Acho que sonhei tudo aquilo! Ou não acho que sonhei. Tive a impressão de ter visto olhos de uma coruja na janela do quarto, a noite estava quente e no meu sonho você trazia uma bacia cheia de água para fazer compressas em minha testa, seus olhos lacrimejavam e você pedia para que eu não ouvisse a canção das ninfas e nem tirasse os olhos dos seus, você estava chorando, você pedia para que Deus não me levasse agora, não, não naquele momento, por fim você sussurrou e pediu-me ao ouvido: "não vá".


O Lugar dos Sonhos.

Eu caminhava por uma casa escura cheia de cantos, sentia o cheiro de sangue e ouvia um choro, porém, distante de onde eu pudesse estar. Andei quase em círculos, na sensação de caminhar por corredores e cômodos intermináveis pela casa perseguindo o choro, andei entre as paredes velhas feito o caminho de um labirinto grego, as portas se abriam para meus passos e a noite cantava com o soprar do vento uma melodia apavorante. Sentia muito frio, porém o suor quente escorria em minhas costas incessantemente. Ao desbravar um longo e funesto corredor, cheio de musgo nas paredes rachadas, onde também havia um carpete manchado ao chão e rasgado por algo que me pareceram garras, eu ouvi o cantar, o gorjeio da coruja em minha mente. Tive medo como uma criança apavorada. Pude sentir espinhos cortando meu ventre e o frio na espinha gelar cada osso de meu corpo, o corredor se prolongava infinitamente. Por mais que eu corresse as cenas se repetiam ao meu redor. Não seguia direção alguma, direita ou esquerda, norte ou sul, para onde eu olhasse ambas as direções eram extremamente iguais. Eu era dominado pela nítida sensação de não haver saída. O choro continuava em algum lugar perdido, e talvez, só talvez, não tão perdido quanto eu.
E quando foi que eu vi Deus? Em algum lugar entre meu louco desespero e seu rosto, eu acho...
A escuridão aumentou e se pôs a sufocar-me. Minha visão turvou e naquele momento as ninfas chegaram até mim. Com seus flancos cálidos e grandes asas, com a voz das sereias e a melodia do céu, tudo se apagou por completo quando, finalmente, veio a clarear minha visão o brilho letárgico da Lua. A paisagem vindoura doutra coisa não poderia ser que feita do que de sonho.
Quando a calmaria tomava forma, e meu corpo parecia acalmar-se, um novo calor começava a encher meu peito, sua voz voltava a mim vinda do céu, tive um sopro de esperança no peito, algo que de dentro da escuridão de meus sonhos mais profundos renascia, surgia do ébano em que eu vivia mergulhado, da indiferença dos meus dias, eu havia me tornado um observador que assiste complacente sua vida passar feito um filme do qual nenhum clímax é aguardado, eu via como vê um soldado cansado de lutar, todos os seus esforços serem desnecessários, quando sua medíocre existência torna-se um fato tão verdadeiro e repulsivo, mas que como um verme se agarra a seu ultimo fio de vida, de uma maneira ou de outra, não tem coragem de morrer e nem vontade para seguir, aguardei uma sensação daquele porte por muitos anos, e não é que ela veio-me em um sonho?
Pois em fim, quando a calmaria começava a tomar conta de minha noite eis que surge como um furacão, como uma tempestade em alto mar, balançando meus alicerces e dominando minha direção, a gritar em meu peito uma dor tão forte e devastadora, minha garganta rasgava-se amarga, estava cheio de angustia de um momento para o outro, o que eu via e ouvia teria a ver com a casa onde estive alojado, vi a face sombria da casa se erguendo majestosamente por trás de uma colina. O canto das ninfas se afastava cada vez mais de meus ouvidos, a visão turvou mais uma vez e quando pensei que estaria caindo num desmaiou súbito algo me fazia caminhar para a mesma direção da qual creio ter fugido por tão dificultoso caminho.
Como se tratou de um pesadelo, grande parte, talvez a parte mais excitante da história, tenha ficado perdida no meu inconsciente louco e quase desumano (um bom tanto devido à letargia).
Fui, pois o choro voltava a chamar-me e eu não poderia abandonar, não, não agora.
Atravessei a passos largos a desnuda floresta desprovida de luz, bosque que, ao notar minha passagem as pressas por seu interior sombrio, irou-se de minha pressa e fez soprar sua ira em ventania para tentar impedir meu andar deveras corajoso perante a imensidão de suas negras nuvens de galhos cecos, quebradiços e ásperos. Veio a roçar em meu rosto primeiro algo que muito me pareceu um lábio cruel e peçonhento, asqueroso, escorregando sobre meu corpo como uma pele escamosa e fria. Senti um forte nojo tão tremendo que náuseas reviravam-se com furor em meu estômago, esfriando-me a espinha e gelando-me o sangue. Meus pés se afundavam em alguma espécie de lodo negro, o farfalhar das árvores assobiava meu nome com uma espécie de voz metálica estridente. Reverberava em meu peito a sensação mais angustiante de toda minha vida, lembro-me de ter posto a mão no coração e não senti-lo bater, num momento de desespero total parei e coloquei o pulso a frente das narinas, nenhum ar saia ou entrava em meu corpo.
O que me fez voltar a mim e desvencilhar-me daqueles tentáculos deveras tenebroso, foi o choro angustiante que me deu forças para retomar meu caminho e ir buscar sua fonte penetrada em minha mente cheia de angústia dos sonhos mortos dantes vindouros.


Minhas Perdições

Segui incansavelmente, quase a arrastar-me, por entre a floresta (peço perdão aos meus mais profundos credos e sentimentos de fé, que me voltam a florescer como margaridas após décadas de truculentos invernos, pois tenho medo de nesse tentar dar cronologia ao sonho eu possa vir a maculá-lo e com ele aqueles seres nos quais deposito minhas crenças) quando previa um fracasso tremendo, dançando acima de mim as ninfas voltavam à sua melodia, belas, eu não as odiava, as temia um pouco, mas odiar, não poderia chegar a este ponto, dotadas de uma beleza sem igual, podendo ser tão lascivas e puras como nenhuma imaginação sonhou pensar, nenhuma imaginação humana é claro! Elas queriam me mostrar alguma verdade, mas eu não queria enxergar, e por mais que a curiosidade me incitasse e a dor, e certa excitação demoníaca, me fizesse pender a cabeça, num murmúrio de sufocante misericórdia eu continuei. E não cedi somente devido aquele choro que me causava ainda mais dor do que as dores que as provações me faziam passar. Mas enquanto as ninfas dançavam ao meu redor, o cheiro podre, a ânsia, aquele lábio peçonhento roçando no meu rosto, tudo continuava, e o escuro era cada vez mais denso.
Arrastei-me ainda por aquele ébano durante horas a fio, e quanto mais eu me demorava em minha jornada mais angustiante ficava o choro.
Quando a luz da lua voltou a pairar sobre mim e sobre a mata, vi tentáculos como de grandes lulas se desligando de meu corpo num deslize causando-me maiores náuseas, quis vomitar os meus órgãos um a um. O horror dominava a minha visão. O caminho que deveria me guiar colina acima era construído por esqueletos, muitos ainda conservavam vestes e cabelos, o cheiro podre era provido de dejetos de carne que ainda não estavam totalmente decompostos. Forçando os olhos, me era possível ver vermes ainda corroendo e dançando pelo pútrido cenário, as luzes do casarão piscavam falhas descobrindo a cada instante um novo olhar para um canto putrefato entre o balouçar das árvores naquele canto mórbido que gritava a noite. Por entre aquele absurdo de turvações ouvi o piar de uma coruja, busquei-a arduamente com o olhar, a desgraçada mirava em meus olhos do telhado daquela casa maldita.
Pensei em desistir, quis voltar, deixar-me levar pela musicalidade das ninfas, mas era impossível, por mais fácil que fosse fazer o caminho de volta eu não queria ver luz alguma.
Enraizando meus pés no chão úmido e frio eu retornava meu caminho para o antro de minhas perdições. Macular minha alma naquele sofrer ingrato. Os céus se colocavam a rir de mim, malditos, desgraçados, nuvens vinham se arrebentando cada vez mais sobre a casa entre raios, e sobre o telhado, entre as cinzentas nuvens, rostos cadavéricos e esqueléticos formavam-se. Riam incansavelmente entre os trovões, mas não havia chuva. Devasta aparição de um pesadelo.
Desesperado, eu reuni as forças que já não acreditava mais possuir, estava quase louco e foi o olhar penetrante da coruja que me fez seguir furiosamente. Ela me desafiava. Várias vezes escorreguei em braços dos cadáveres para posteriormente agarrar-me em algum outro dejeto. Nada me importava mais, só precisava encontrar aquele choro. Sei que parece estranho, mas num sonho tudo é real e eu perseguia aquele choro como se lutasse por minha própria vida: Instinto.
Quando obtive êxito chegando ao topo da maldita colina, olhei para baixo tentando trazer de volta meu equilíbrio. O bosque do qual eu fugira, na verdade, era uma parte de uma grande floresta que me pareceu muito mais perigosa do que qualquer coisa que eu tivesse visto ou sentido, perderia a conta ao tentar medir a densidade do pântano, a quantidade de corpos, os tentáculos pegajosos, ou as tantas árvores decrépitas e seus outros espinhos muito provavelmente venenosos de suas rosas negras – sob ainda o orvalho cintilante e quase angelical. Assim, voltei-me para frente da casa.
Ao agarrar-se à vida sobre qualquer pesar e passando por cima de tudo que queira lhe impedir nem sempre a sensação ou o resultado é inicialmente satisfatório.
Como sou um ser humano limitado e incapaz de realizar ou descrever a maior parte do que penso, quem dirá do que sonho, assim me conformo em tentar inutilmente trazer alguns poucos vestígios à luz .
Uma claridade surgiu por detrás da casa e cegou minha visão, de olhos exprimidos e lutando contra a luz entrei novamente na casa.
Ah, eu gostaria agora de ser um Anjo e falar mil línguas para achar numa palavra o que vi e o que senti. Nego-me ferrenhamente a acreditar que minha mente superficial e falha seja a única responsável pelas criaturas bestiais que residiam naquelas salas e corredores, talvez se eu fosse um gênio e minha mente estivesse acima dos outros mortais eu acreditasse que tudo não passou de imagens criadas pelo meu subconsciente e libertadas naquele instante. Se eu fosse um louco, eu poderia crer que nenhuma razão realmente é o elemento necessário para dar luz a tantos demônios. Queria também poder crer que estive entre a vida e a morte, e eu escolhi viver, mas sou completamente leigo a tudo que diz respeito à vida no "além", assim como não possuo nenhum conhecimento sobre qualquer religião ou doutrina que me viesse a provar esta ou aquela parte de meu devaneio concebido.
De qualquer modo, é possível descer além do desespero? Eu já não raciocinava mais, não era ao menos instinto, impulsos bestiais, e apenas uma ajuda eu obtive: a coruja. Irônico, o ser que achei guiar-me para a perdição trouxe luz para minha jornada. Ela levou-me rapidamente pelo meu pesadelo e mostrou-me portas que estavam escondidas nas sombras e curvas. Havia sido tomado apenas pela adrenalina.


À Vida

Bom, neste momento acho que nem é mais necessário descrever quem chorava. Voltei por ela, sai triunfante, sangrando, arrastando uma das pernas e com dores que atravessam a barreira do sonho e que, enquanto estou sentado aqui, à mesa do café, ainda sinto as pontadas e pequenas convulsões, mas sai triunfante com minha mulher ao colo. Mais lívida e encantadora que qualquer ninfa luxuriosa e mais forte em sua doçura que qualquer tentáculo escroto.
Feito pássaro aprisionado ela cantou em choro, e eu como um felino debulhei-me em um luta feroz.
Creio que minha esposa possa ter passado realmente a noite ao meu lado fazendo-me as compressas e talvez mergulhada em choro, mas não ousarei perguntar nada sobre o que aconteceu, quero crer e quero que ela acredite que não me lembro de nada e que ela voltou para mim pelo o impulso do simples frescor da manhã de domingo. E pode agora dançar descalça nessa sua valsa de ter voltado a me amar.
Quando acordei, ela estava adormecida ao meu lado com um dos braços sobre meu peito apertando firmemente a blusa de meu pijama, parecia cansada, mas seu rosto estava lívido e cheio de luz, sua boca semi-aberta respirava profundamente e seu peito enchia-se com o ar que ela respirava enquanto recostava a face em minha nuca e seus cabelos espalhavam-se bagunçados pelo travesseiro. Mesmo com todo mal estar que sentia e mesmo que isto pareça por de mais um clichê, eu me senti feliz. Quanto a meu sonho, a última visão que tive foi daquela luz forte, translúcida cheia de vultos brancos flutuantes. Onde eu a encontrei, bela como jamais tinha estado e apaixonada como foi (e como eu fui) a muitos anos atrás.
Mas chega! Eu sou incapaz de descrever aquilo que em algum lugar de minha quase perturbada mente acho ser Deus. E sendo que também me afastei dele, e só agora eu quis voltar.
Estranho a vida recomeçar em uma manhã de domingo...
E enquanto lhe observo diverti-se com o degustar de seu pão e leite, eu queria poder lhe falar como agradeço você estar comigo, como sou grato por você ter permanecido ao meu lado todos estes anos e ainda ser tão solicita e descobrir-se apaixonada por mim. E mesmo se não for verdade que estive quase a desfalecer, mesmo que luta nenhuma eu tenha travado para voltar, eu gostaria que você soubesse que foi apenas porque você murmurou-me: "não vá." que eu despertei esta manhã.


* Imagem: Obra de Rene Magritte.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Nihil V



- Gabi?
- Sim Bia.
- Você lembra daquela música que a gente cantava quando criança?
- Sim, claro.
- Ela começava assim...

Está abafado agora. Bem abafado.
Curioso porque quase todo tempo a sensação que se tem é de não haver clima. Não chove, não faz frio e também não venta nenhum assobio do tempo.
Normalmente só existe a neblina, sem nada o que ver e nada o que sentir.
Às vezes fico pensando se todos que estão escondidos em suas casas escrevem para si ou se ficam simplesmente olhando o teto, as janelas fechadas e os móveis vazios.
Talvez outros como eu tenham alguns dos seus para dividir a dor.
Ou talvez eu seja a única que não tem ninguém por eu ser a única em qualquer parte.

- Canta comigo, vai. Era tão divertido. A gente segurava as mãos uma de frente para o outro com os braços cruzados, isso, desse jeito, e no três a gente girava e...

Eu fico aqui tentando lembrar como tudo isso começou.
Não lembro se primeiro vieram as doenças ou as bombas.
Mas acho que o começo mesmo foi quando todos os animais nos abandonaram. Gatos, cachorros, pássaros...
Os que não fugiram morreram.
A água foi envenenada, disso eu lembro bem.
Lembro do Pedro quando saiu daquela caixa d’água onde a gente costumava tomar banho em dias quentes. Sua pele parecia descolar do corpo.
Seus olhos cheios de sangue imploravam por ajuda.
Ele não conseguiu gritar.

- Vai, não para de rodar.
- Eu não estou parando.
- Esta sim, sua molenga. Sempre foi molenga. Quando a gente era criança você não agüentava e era a primeira a cair
- Vai. Continua cantando...

Ah, Bia. Às vezes tenho a impressão de que se eu abrir a porta posso encontrar com a gente ainda criança brincando de amarelinha na rua.
E às vezes acho que você esta aí fora.
Doente esperando que eu cuide de você. Ai fora que é dentro dessa nevoa.
Mas não tenho coragem de sair.
Não tenho esperanças suficientes para acreditar que você, minha melhor amiga, esta viva em algum lugar.
Ah! Como eu sinto a sua falta.

- Haha. E sempre acabava assim lembra? Com as duas caídas no chão. Isso quando não quebrávamos nada antes.
-Verdade Bia. E meus pais ficavam furiosos. Te mandavam embora e me deixavam de castigo... E seus pais, o que faziam?
- Eles não olhavam direito pra mim.
- E agora?
- E agora o que?
- O que fazemos?
- Hora de fazer você morrer de cócegas.

O silêncio é sempre tão sepulcral aqui.
E aquela sensação de abafado esta mais clara agora.
Não é o tempo que está abafado, é a minha angústia que me tira o ar.
Foi sempre você que em qualquer tempo vinha até mim.
Me tirava do chão e curava as minhas feridas. E nunca o contrario. Nunca.
E eu ainda espero que você venha abrir essa porta.
Tenho racionado meu alimento comendo cada vez menos esperando você chegar.
Mas preciso dizer que todas as coisas gostosas acabaram.
Tudo agora tem o inóspito gosto de pó. Pó de solidão e velhice precoce como o meu coração seco.
E não importam quantas lágrimas eu chore inundando meu peito. Ele continua a ressecar.

- Ainda se lembra daquele dia no armário?
- É claro que lembro.
- Você sempre faz isso Bia.
- Isso o que Gabi?
- Me pega desprevenida.
- É que eu adoro o gosto de surpresa na sua boca.

Eu me alimento com suas lembranças como uma viciada em morfina. Preciso delas para superar a dor, esse medo.
Mas continuo vivendo, por desejar mais que tudo que você volte mais uma vez para me salvar. E me ajude a lembrar daquela música que cantávamos quando ainda éramos crianças e já não lembro mais.


 Às minhas amigas L, J e A.


Imagem:René Magritte - Madame Récamier de David

sábado, 27 de novembro de 2010

Nihil IV




- São dois cigarros.
- Eram três cigarros. Tenho certeza.
- E vamos ficar aqui contando cigarros?
- E respirando fumaça e soprando as cinzas que caem sobre a mesa... Eu tive um sonho Jô.
- Não pode ter tido Iza, não pode.
- Eu sonhei, lembro bem, não podia ser real...
- O que não podia ser real? Esta maluca? E você, aliais, não podia ter sonhado.
- Eu sonhei, te digo que sonhei. E o que não pode ser real?
- Qualquer coisa pode ser real Iza, qualquer coisa. Olhe para nós, o que você vê, parece real?
- Eu entendo o que você diz, mas era diferente...
- Diferente como? Eu de olhar para seu rosto enxergo seus ossos. E seus olhos assim como os meus já perdem a cor. Não há energia, você entende isso? E nem sei como ainda estamos vivos sem nem ver mais a luz do sol, sem nem saber mais se é dia...
- Ou se é noite. Já ouvi você dizer isso cento e trinta e duas vezes, pois eu contei, anotei todas. E digo que era diferente, por isso foi um sonho.
- Cento e trinta e duas vezes? Você realmente não tem o que fazer Iza.
- Eu anotei, fiz um risquinho no meu caderno para cada vez que você disse “nem sei como ainda estamos vivos sem nem ver mais a luz do sol, sem nem saber mais se é dia ou se é noite.” E anotei todas as vezes que você já disse “Eu acho que devíamos queimar os livros de uma vez e acabar com essa angustia de morrer aos poucos”, foram setenta e três vezes, também anotei quantas vocês você diz que me ama, quantas vezes você ameaçou se matar e o número de dias em que ouvimos bombardeios, e o número de dias em que o silêncio nos dominou...
- Sim, Iza, eu entendi, você tem tudo anotado.
- Sim, Jonas, por isso eu disse que eram três cigarros e não dois.
- Ah, eu não me importo, eram dois, e nisso você esta errada...
- Não estou.
- Está!
- ... Mas eu te disse que sonhei.
- Não sonhou Iza, não sonhou, não pode ter sonhado, ninguém sonha.
- Eu sonhei, e isso pode ser um motivo para ter esperança, não pode?
- Pode. Poderia... mas não pode, porque você não pode ter sonhado.
- Eu sonhei... na verdade Jô, foi um pesadelo.
- Diga de uma vez...
- Eu sonhei, sonhei que nós fazíamos amor.
- Isso é um pesadelo? Mas de fato, isso parece bem improvável de ter acontecido, mas ainda não acredito que você sonhou, deve estar inventando.
- Não estou, presta atenção, me deixa continuar. Depois que nós fizemos amor, e era lindo, você ia para o banheiro e se matava. Se matava e eu só via depois. Viu só?
- Vi o que?
- Como é impossível. Primeiro porque é impossível que nós façamos amor, e segundo que é mais impossível ainda que você um dia, cumpra suas promessas de suicídio e me deixe sozinha.
- Porque você acha impossível que eu lhe deixe sozinha?
- Porque você me ama Jonas, só por esse motivo.
- Entendi... mas ainda acho que você esta inventando que sonhou. Você bebeu ontem?
- Bebi, e o que importa?
- Importa que você pode ter imaginado, talvez porque queira muito fazer amor, e porque queira muito que eu me mate.
- Oras, não fale besteira Jonas. Eu não quero que você se mate... Veja só...
- Mas você queria fazer amor comigo Iza?
- Queria, queria sim, antes do meu sonho eu queria mais, agora nem tanto...
- Talvez você tenha medo que eu me mate depois...
- É, pode ser isso sim.
- Mas você bebeu muito ontem?
- Bebi, já disse que bebi. Meia garrafa.
- Meia garrafa?
- Meia garrafa de vodka três vezes.
- E porque você bebeu?
- Porque queria fazer amor com você...
- ... Entendi....
....
- Iza?
- Diga...
- Porque nós não fazemos amor?
- Porque você não pode Jonas, não lembra? Você se envenenou com a fumaça e a água do rio aquela vez, e desde então, você não pode mais fazer amor...
- É mesmo... Iza, mas eu ainda duvido que você tenha sonhado. Ninguém sonha.
- Ah... tudo bem, você não quer acreditar em mim, tudo bem. Vou ficar sozinha com a minha esperança.
- Quer que eu lhe acenda outro cigarro?
- Quero. Você não quer?
- Não agora, gosto de respirar a sua fumaça pra esquecer a fumaça de lá de fora, é uma forma de você me pertencer.
- Então acenda logo meu cigarro Jonas.
- Aqui está.
- Sabe Jonas, eu sempre gostei dessa fumaça.
- É, eu sei.
- É, você sempre sabe.
- Isso mesmo. Eu sempre sei ... Iza, você viu o Leo ontem?
- Não vi, dormi logo e sonhei com você.
- Estranho...
- É, estranho...
- Vou ao banheiro.
- Ok.
...
- Iza, venha ver.
- O que houve querido?
- O Leo se matou no banheiro.
- Se matou...?
- É... Iza, você bebeu meia garrafa ontem?
- Sim, bebi meia garrafa de vodka três vezes.
- Três vezes... E você não tem mais tanta vontade de fazer amor comigo.
- È... não tenho.
- É... não tem... Nós fizemos amor no escuro, Iza?
- No meu sonho fizemos.
- Sabe Iza, eu disse que você não poderia ter sonhado.
- É mesmo Jô. Parece que não... que não sonhei...
- Melhor eu me sentar ai à mesa com você de novo.
- É... é melhor... E o que vamos fazer?
- Não vamos fazer nada Iza, não vamos fazer nada. Eu vou ficar aqui olhando para a sua palidez e para os seus ossos e você vai ficar ai olhando para mim, é só isso.
- É só isso mesmo, ao que parece...
- Agora, você vai se convencer de que havia dois cigarros?
- Não, querido. Eu anoto tudo, havia três.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Anicê



Anicê.
Fogo! E o mundo inteiro parece cair a seus pés.
A garota de cabelos e traços indígenas se redescobre divertindo-se naquela imagem de devastação. Amerê!
Hoje sou como Arani.
No lugar de florestas: gado, pasto, dinheiro fazendo dinheiro.
E me mudam de lugar. Casa nova.
No lugar da favela, de sua casa, de seus pequenos pertences sem valor monetário algum: a rodovia, os carros correndo de faróis feitos olhos selvagens na noite.
Bando de Jaguar.
Agora, novamente o fogo!
Quem chorou e quem se debulhou em lágrimas quando nem o vôo mais alto do pássaro mais rápido foi suficiente para sua fuga?
Quem chorou quando as madeiras da favela, quando a cortina velha, o lençol cheiroso viraram cinzas?
Cinzas para cobrir as cinzas de sua tristeza.
Eu sou Arani.
Fogo na grande casa. Fogo! O brilho de tupã seria cegado pelas chamas ferozes da revolta.
Mas é a mãe lua que presencia sua festa:
Ah, Airequecê!
Bandeira hasteada pela mão direita.
A alma limpa de dor e pelas mãos macias da vingança.
O corpo nu, os passos lentos.
Vestida de Araruna.
Ao longe o primeiro carro de bombeiros, do outro lado a viatura policial.
Índio anda pelado sim, meu senhor.
Eu sou Avá.
Ela pode alegar qualquer coisa perante as leis do homem branco.
E além do mais, não faz diferença.
Trocar uma cela por outra cela menor.
Alcova por cova, nem faz tanta diferença.
Além do mais, é dia de índio.
E índio quer... Quer ver o circo pegar fogo, porque palhaça é invenção dessa gente, dessa gente que não se sabe dizer muito bem quem ou o que é.
Índio quer ver o fogo.
Amerê. Amerê. Amerê.
Sou Avá e Araruna.
Airequecê. Esplendor que só você vê, Airequecê.
E que Amanaci hoje não de o ar de sua graça.
Hoje o Ipiranga vai fazer jus ao nome, é dia de Anicê.
E eu sou An!




Arani: tempo furioso
Amerê: Fumaça
Airequecê: Lua
Araruna: Ave preta.
Amanaci: Senhora da chuva
Ipiranga: rio vermelho.
Anicê: fogo.
An: fantasma

sábado, 2 de outubro de 2010

Um conto do riso desesperado

Conto de Caio S.C.





-OK, Você tem noção do que eu disse, certo?!Você tem noção dos perigos que você esta aceitando?!
-Sim
-Posso perguntar por quê?
-Pode
-Por quê?
-Porque sim, e não seria pra isso que vamos pra lá?!
-Sim, ... Mas....você não tem medo?
-Logicamente!
-Mas se você tem medo...E então?! Por que ir?
-O medo só vai me consumir em alguns instantes, eu vou errar, errar, errar, talvez quem sabe quase chegar nesses objetivos, mas pelo menos eu vou tentar, né?!
-Sim...humanos, seres estranhos.Você tem noção também do sofrimento que você vai passar né?!
-Cara, você me mostrou tudo, eu tenho noção sim!.....Porem, pensando bem....
-Então você desistiu?
-Não, não importa, a felicidade dos outros é mais importante que a minha, principalmente se eu amo essa pessoa. Mas não tem jeito mesmo de eu conseguir?!
-Isso só depende de você, o que você viu foi só uma das bilhares de milhares de possibilidades de ações, e de acontecimentos.
-E então ainda existe 1% de possibilidade?
-“Se você acreditar e tiver o que é necessário, no caso fé em si mesmo, você consegue o impossível!”
-Quem disse isso?
-Você quer dizer, “quando eu escreverei isso?!”, por que essa frase é sua, será durante mais uma fase ruim sua, você será uma ótima pessoa pra conversar com você mesmo, e com os outros também, e os outros adorarão conversar com você.
-Tá certo! Se existe uma mosca de oportunidade, eu acertarei meu tiro nela
-Bela outra frase sua!
-Valeu, sou bom nisso
-Você não sabe o quanto
-Não sei, mas imagino!
....
-Mas é tanto sofrimento... Esqueça, eu vou sim! Pode abrir!!!
-Certeza?!
-Eu disse que sim, não me faça pensar melhor!
- E ENTÃO QUE SE ABRA A PORTA DA ESPERANÇA!!!
O som de portas gigantes se abrindo
-Até mais, espera ai, “Até mais nada”, Não quero te ver nunca mais Morte.
-Espero que nem eu te veja, tão cedo - Risos - Então meu querido amigo sem nome, bem-vindo à VIDA!



segunda-feira, 14 de junho de 2010

Nihil III



O mais puramente medíocre é que eu sinto falta daqueles gritos que ouvia em minha mente. Até mesmo eles cessaram, nos últimos dias ou meses, só o que eu escuto é o som abafado da tosse de meu avô.
Ainda lembro quando ainda era um homem jovem, com vida gritando nos pulmões e cheio de desejos.
Eu envelheci rápido de mais. Rápido de mais.
Nem completei meus 35 anos ao que imagino, e tudo que tenho é um corpo cansado e poluído pela neblina acinzentada que eu chamo de “Grande Solidão”.
Engoliu cada pedaço de qualquer coisa que me fizesse querer viver.
Aqui, é como se não tivéssemos vizinhos, e como se nunca tivéssemos tido amigos.
Aqui não tem mais nada.
Precisava também dizer que eu não falo mais... visto que meu avô, única companhia, deixou de escutar faz tempo.
Tempo...
Eu também não sei quanto tempo faz que a Juliana deixou nossa casa.
Ela foi em busca de qualquer coisa.
Qualquer coisa que a mente dela inventou pra tentar acreditar.
Em deus.
E não tem nada.
Não tem mais nada.
Eu lembro que existia um rio, bem longe daqui, e lembro-me de beijos no rio.
E depois eu já não lembro mais nada.
Porque na verdade não tem nada.
E nada pra lembrar.
Só tem a Grande Solidão lá fora.
E também dentro de mim, e estou falando da neblina agora.
Da neblina que é fumaça.
Eu também me esqueci do Tom.
Quando ele voltou também havia perdido membros, ai nós o enfaixamos.
Desde então ele também não fala mais comigo.
Eu imaginava que os gritos na minha cabeça, eram os gritos dele.
Talvez fossem.
Talvez.
Eu não tenho mais cigarros.
Nos restam poucas conservas.
E depois, eu nem sei o que fazer.
Eu podia ter saído em busca de qualquer coisa.
Talvez eu não voltasse. Talvez eu voltasse sem alguma parte de mim.
Talvez ela volte.
Mas se ela estiver sem pernas, eu teria que ir buscá-la. Lá na Grande Solidão.
Mas ela esta entrando em casa, já está... aqui.
Eu devia ter consertado as janelas quando ela me pediu. Ai quem sabe, ela não entraria.
Não entraria pra piorar a tosse do meu avô.
Para impedir a cicatrização de Tom.
Para me deixar mais velho do que eu acho que realmente sou.
Pra ter levado-a.

Imagem: Quadro de Salvador Dali

Adendo:
Aos singelos (e inspiradores) pedidos de Liz.
E meu muito obrigado.

outros pedaços perdidos:
Nihil II
Nihil I

terça-feira, 25 de maio de 2010

Embriagues




Um homem quando se torna carente tem grandes chances de se tornar deprimente e depressivo, muito mais deprimente na verdade.
E esse mesmo corre o risco de se tornar um poeta... pobre ser. Acha que é alguma espécie de Deus brincando com as palavras, mas mal sabe ele que elas fazem dele o que bem querem. Que de nada vale seu semblante ou seu orgulho, gozam dele as emoções e sensações perante a sua escravidão.
Indiscutivelmente, agora que conheço a minha sina, para que me preocupar? Quem é poeta é no mínimo amaldiçoado, escória da humanidade, um anjo de asas quebradas.
Eu tenho a paixão das prostitutas, o amor das donzelas e a veneração das damas-da-noite. Por isto só sigo na madrugada, prefiro a companhia dos morcegos à dos semideuses! Ainda me permito voar, mas quando volto ao chão meus pés ardem como se eu pisasse em brasas, e minhas grandes asas machucadas dificultam meu caminhar arrastando-se no asfalto.
Preciso de um olor forte e um gosto doce para aliviar a minha dor. Mas não me resta um mísero mango no bolso.
Deus me deu a arte para que eu ficasse louco. Assim meu sorriso é devéras melancólico.
Cheguei ao ponto! Eu dou risada de minha desgraça.
Por isto meu vinho é do bar mais escuro, da adega mais suja, da esquina mais fedorenta. Eu vivo entre os ratos: "Procure um rato entre os homens e encontrará um príncipe entre os mortais” – Naquelas longas noites de solidão.
Ah... Eu cansei dessa angústia. Maldição. MERDA!
Esta piada não me faz mais rir, a não ser nos momentos de lascivos de raiva e possessão em que me torno masoquista, (até sádico talvez).
Eu cuspo na sua cara com meus versos!
Mesmo estando... perdido, pisado.
Deus me pede uma canção e eu não tenho um PUTO no bolso.
POR ISTO O VINHO DOS POETAS É SEMPRE O MAIS BARATO.
Ironia...deixe-me me embriagar... eu medíocre... eu desgraçado!

terça-feira, 30 de março de 2010

Nihil II



São apenas cinco metros até a casa de Líli e eu não consigo ver daqui.
Ás vezes eu tenho a sensação de estar ouvindo a sua cadeira de rodas ranger, mas eu sei que isso é uma ilusão.
Eu não ouço mais os tiros e bombardeios a mais ou menos duas semanas, isso é o que me lembro ou imagino que seja.
Quase estou acreditando que o relógio esta girando seus ponteiros mais devagar, e se ele parar eu estarei perdida.
É difícil acreditar que chegamos até aqui, mas o Léo já acha impossível acreditar que algum dia foi diferente. Desde que nosso bebe nasceu morto e seco ele não fala direito comigo.
Foi tudo no meio daquela fumaça e eu não posso dizer que um dia fui uma mulher saudável. Acho até bom que meu pequeno tenha nascido morto, assim, é um a menos para sofrer.
Os mantimentos mal dão para mim e para ele, não tem mais água encanada, e nós não tomamos mais banho.
Eu tenho chamado o Leo sempre, peço para ele sair daquele quarto empesteado pelo cheiro do bebe morto, ainda bem que ele já nasceu seco, se não teríamos vários bichos aqui, comendo os restos dele.
Ele sempre quis ter um filho, eu não lhe culpo.
Não posso esquecer-me de conferir o estoque de velas. Estamos nos alimentando de pão que eu mesma faço, é difícil assar sem gás, às vezes o Leo me ajuda a ascender o fogão com restos dos nossos móveis, eu espero que o álcool não acabe.
Talvez, se os bombardeios não voltarem a gente tente sair novamente.


Nihil I

http://framboesasnojardim.blogspot.com/2008/07/feche-janela-meu-querido-no-h-nada-para.html

Adeus




Hoje nós temos um motivo bobo para sorrir, poderíamos nos abraçar forte e nos alimentar do calor do outro, sentindo o cheiro de flores, refrescantes dentro da sala neste dia frio e sem sol.
Nós poderíamos esquecer as magoas, e até deixar cair algumas lágrimas de alegria regando nosso sorriso, nós poderíamos continuar juntos por mais um dia, ouvindo aquela canção, aquele ritmo que nos ilumina de dentro para fora e falar das memórias.
Depois, poderíamos nos entregar naquele longo beijo, devorando o outro através dos lábios, só tato e pele, e minhas mãos na sua nuca e suas mãos nas minhas costas.
Olharíamos um nos olhos do outro e seriamos felizes.
Nós poderíamos, mas como a brisa do mar, você levou embora todas as minhas esperanças, devorou minhas necessidades, e simplesmente com a mão sobre meu ombro, você me disse adeus.
Eu olhei pela janela, e não pude dizer mais nada. O adeus que eu lhe daria esta ainda dentro de minha garganta proibindo minha respiração, assim como seu perfume ainda esta na minha toalha, proibindo-me que eu a lave.
Você cheirava a rosas. Feliz aniversário...

Imagem: René Magritte - Os Amantes

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Para dizer a verdade¹

Eu sei, - disse-me ele¹ - queria poder fazer seu sorriso se abrir, mas me dói tanto o peito que isso eu não posso, eu não posso, minha amiga, hoje lhe colocar no colo e lhe enxugar as lágrimas. Hoje não tem tantos mais motivos para você rir a toa, talvez por esse motivo, você queira tanto rir para sempre, porque todas as noites que fica em casa, são noites que lhe angustiam.
Parece não haver sonho para vencer suas dores, seus medos fúteis e inúteis, minha menina, parece mesmo que você quer acreditar nos erros não cometidos, mas tudo bem, toda essa angustia é escolha sua. Sabe que lhe deprime, então poderia calar suas idéias no travesseiro e esquecer. Mas você não quer, você quer remoer seus pensamentos e as suas sensações, então, quem sabe, ter certeza do seu caminho.

A vida não é feita de sonhos, mas pode ser alimentada por eles, e a escolha é sempre toda sua.



¹Vem pela consciência, surge então o tão dito morcego. Ele ronda sobre minha mente, e faz assim... é como um amigo corvo , roçasse no meu pescoço e canta as palavras da esperança.
Não grita, mas me sufoca seu semblante e como me domina e me convence a me entregar, à ela, diz Ela a minha natureza.
De força eu me sustento e caio na calçada da escuridão, chamo pelo nome que não existe e peço que me liberte desta minha amiga: qual reflexo, tão pálido e frio, não me assusta mais, sou eu e acho graça. É meu amor, minha rebeldia, meu estado de embriaguês e perseverança.
Os sonhos, não ficam sempre, mas sempre voltam.
É então este morcego, orgulhoso de sua escuridão, muito longe de qualquer belo gesto de agrado. Este eu que vai rir, mas sempre na escuridão, se esta preso, cai.... se solto, livre reina sua majestosa melodia nos céus.


São estrelas, não estamos enganados, são estrelas.

sábado, 17 de outubro de 2009

Um abraço terno diante a janela

Existe uma maneira de entender porque as flores estão caindo lá fora.
É só parar e reparar no pequeno raio de só que avança em nossa direção pelo horizonte.
É só entender o vento, entender o tempo e o cheiro de que o passado está mais perto do que nunca.
Nós podemos ficar aqui toda a tarde até que a noite caia e nos sufoque de uma vez.
Mas nós também podemos ficar aqui toda a noite até a manhã nos fazer acreditar no amanhecer.
Nós sempre podemos esperar mais de algum lugar, e por isso as folhas caem.
Em um eterno outono qualquer de um país qualquer onde o som da memória se confunde com violinos e pianos.
Lembra dos dias em que nós riamos sempre e nosso som eram como um belo cravo?
Existe uma criança dentro de nós, uma criança que precisa brincar de destruir castelos de areia e construir novamente um império.
É por isso que as folhas caem.
Sempre precisamos nos renovar, derramar algumas lagrimas e seguir em frente, sempre seguir em frente (como as árvores que sempre seguem o céu).
Nós somos assim, apenas como duas crianças brincado na chuva, com os pés na lama, e largos sorrisos.
E agora podemos ter esperança de que as coisas ficarão melhores, nós vamos vencer essa tristeza desnecessária e sorrir para as flores na primavera assim que ela chegar.
Vamos juntos lutar até o fim, vencer cada batalha e cicatrizar todas as feridas.

Ouça essa música comigo, pois ela pode lhe trazer paz. Aquela paz que você tanto deseja e tanto precisa para voltar a seguir e acreditar.
Como a manhã sempre chega, como os olhos nasceram para brilhar, uma nova vida entrará em seu peito e uma luz cristalina irá lhe envolver.
Essa canção é para lhe mostrar a vida.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Nihil I

Feche a janela meu querido
Não há nada para ver lá fora, não há nada para ver.

.
1
2
3
Perdi a conta dos disparos lá fora

1
2
3
Perdi a conta das suas lágrimas.

1
2
3
Perdi a conta dos corpos.

Feche a janela, eu já disse querido. Feche a janela! Não há nada para ver lá fora.

Nihil:
As janelas não abrem e o rádio não toca nada, não fazemos mais músicas, os cães não latem já tem alguns meses, sim, alguns meses.
O dia inteiro é só a fumaça, a fumaça cinza e mal cheirosa das ruas.
Os dias e as noites estão indefiníveis, eu conto os dias pelas voltas do relógio.
A Ana, já faz um tempo, não tem mais mamado do meu leite, e Paulo não brinca mais, ele não ri mais.
Miguel não consegue desviar sua atenção da nossa palidez, ele sempre me lembra que quase nenhum sangue nos cora.
Ao menos, ainda tem o barulho rangedor de minha cadeira de rodas para nos lembrar de que ainda estamos vivos.
Estar em qualquer outro lugar, seria como estar em qualquer outro lugar.
Quando a fumaça começou e tantas cinzas vinham com o vento, eu acreditei que Deus estava nos abandonando.
Hoje Paulo disse: “Deus não existe”.
Eu não consigo acreditar que vocês vão voltar, eu também não acredito que um dia essas cartas chegaram a vocês.
Antes, eu ia até a praia colocar as cartas em garrafas.
Hoje as portas não abrem, e mesmo se elas abrissem, elas dariam para esse mesmo cinza que tem aqui dentro.
E eu empilho as cartas para passar meu tempo.
Fizeram tantas revoluções, defenderam tantas idéias e pra que? Pra que se minha pequena não toma meu leite?
Nós estamos morrendo, e nosso passatempo é medir a evolução de nossa degeneração.
Devoramos livros para debochar de seus autores.
Apelidamos Beckett de Nostradamus, e estamos rindo. (Eu e Miguel)
Sim, rimos porque não temos nada melhor para fazer.
Olha só: “Não há nada melhor para fazer”
Somos disformes.
O pai de Miguel resolveu sair, ele voltou sem um braço e metade de uma perna.
Agora ele está na banheira, mas isso também já faz algum tempo.
Assustar-se-ia com minha magreza e com a de todos nós.
Faz diferença?
Não. Nunca. Nada.
Parece que quando existiu sol e lua, eram sonhos.
Mas já chega, estou ficando cansada.
Escrever não é mais tão divertido.
Nunca foi.
Nunca nada foi.
Vou colocar óleo na cadeira de rodas, e jogar cartas com Miguel.
Esqueci de dizer, provavelmente estas letras saem tremidas, estamos quase no escuro.
As velas estão no fim, em breve, precisaremos queimar nossas roupas.
Com saudades, Lili.
Obs.: desculpe a frieza, mas o bombardeio lá fora não me deixa mais escrever poesias.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Sem Sinal de Lua


Parte 1 - Rafael.
Madrugada de terça para quarta feira. Junho de 2008.

Com a mão esquerda colocou a chave na fechadura, com dor de cabeça e cambaleando olhou em volta e avistou as escadas por onde subiu. O elevador já desligado como sempre após as 02h00. No final do corredor a pequena janela pela que viu a noite fria e nublada lá fora. Sem sinal de lua. Girou a chave duas vezes para a direita, levou a mão até a maçaneta da porta, girou a 90° e empurrou a porta. Entrou e encostou a porta. Lembrou-se da chave, abriu novamente a porta, retirou a chave da fechadura, fechou e trancou e deixou a chave ainda na porta. Estava escuro. Caminhou sem ascender nenhuma luz, deixando cair algumas coisas e guiado pelo som de uma televisão ligada.
Chegou a seu quarto e abriu a porta que estava apenas encostada.
Camila já estava dormindo vestida em seu pijama rosa - chá. Na televisão passava um daqueles velhos clássicos do cinema, desses que foram remasterizados e coloridos recentemente. O quarto cheirava a Leite de Colônia, assim como ficava a pela da moça sempre após banhar-se.
A cena parecia ter-lhe despertado um pouco de sua embriaguês. Desligou a televisão e sentou-se em seu lado da cama. Tirou os sapatos, a jaqueta pesada de couro, e a calça do paletó. Entrou para baixo das cobertas e deitou-se. Permaneceu, por longos instantes, parado olhando na direção do teto, porém por estar no escuro, nada enxergava a não serem os seus pensamentos acusadores e melancólicos. Pensava no modo que contaria tudo a Camila, se é que ela já não desconfiava. Seria justo cometer essa crueldade com ela? Ou piro seria omitir? Pensou na esposa, deixou verter uma lágrima. “um ano de namoro, dois de casamento. Ela tão nova, vinte e dois anos de pura jovialidade, ela já não tão novo, doze anos de diferença, e quem imaginaria, já tão destruído e causando tanto mal a ela.”. Abraçou a esposa mais continuou que continuava a dormir profundamente. Cada vez mais angustiado com suas atitudes, apertou-a em seus braços “Agora é tarde demais”. Ela pareceu acordar por um pequeno instante e recostou seus flancos no corpo dele, voltando a dormir.

Parte 2 - Camila
(manhã daquela mesma terça feira)

Camila acordou mais disposta. Rafael havia saído mais cedo que o normal, sem sinal de café da manhã na mesa mais uma vez, porém, varias de suas roupas estavam para fora do guarda-roupa sobre a poltrona do quarto, o que demonstrava que seu esposo havia parado para escolher com que roupa sairia para trabalhar, ao invés de vestir a primeira que pegasse como fazia quando estava deprimido.
Ela deixou tudo bagunçado, tomou banho, vestiu-se e foi trabalhar. Na hora do almoço, como de praxe, ligou no escritório de Rafael. Foi atendida por Julia, a secretária que lhe disse apenas que o Sr. Rafael não havia chegado até o momento. Preocupada, Camila ligou no celular no celular que, aparentemente, estava desligado. As horas seguintes foram angustiantes.
As 16h00, saiu do trabalho e foi para casa sem vontade alguma. Ao chegar ligou novamente no celular que ainda parecia estar desligado. Pensou um pouco, e deparou-se com a possibilidade do aparelho estar sem bateria e que não havia motivo para preocupação. Ligou para o escritório e novamente ouviu a voz de Julia “O Sr. Rafael não está.” Logo em seguida, a voz de um homem do outro lado da linha pareceu dizer: “É a senhora Camila? Deixe-me falar com ela.” Camila ouviu atentamente o que Carlos (colega de trabalho já a alguns anos de Rafael, que freqüentava a residência do casal) queria lhe dizer e com voz chorosa desligou.
Permaneceu imóvel.
Quando recobrou a consciência sobre seu estado, levantou-se, e começou a colocar a casa em ordem.De instante em instante, Camila deixava-se chorar. Pensava se diria a Rafael que já sabia de tudo por intermédio de Carlos, ou se esperaria até que ele lhe disse-se.

Parte 3 - Diálogo intuitivo.
Noite de terça feira até madrugada de terça para quarta.

20h15- Rafael lembrava-se da noite passada ao lado de Camila e sorri.
20h17- Camila lembrava-se da noite passada com Rafael e chora.
00h32- Rafael esta cada vez mais embriagado.
00h47- Camila já de pijamas, estava deitada assistindo televisão à espera de Rafael. Quanto mais a madrugada avançava, menos sono Camila sentia. Passava um especial na televisão, uma seqüência de vários filmes antigos, clássicos do cinema, desses que foram remasterizados e coloridos recentemente.
02h28- Rafael subia vagarosamente os nove lances de escada até seu apartamento, o elevador já estava desligado. Pensava: “Drogas na juventude, álcool, mais essa merda de cigarro que eu não consigo largar. Sem falar em todas as noites que acabei comigo. Não era de se esperar algo diferente...”
02h29- Camila pensava: “Tantos anos se negligenciando...hoje que ele parecia mudar... Como seria de outra forma?”
02h53- Rafael finalmente chegou ao nono andar e estava em frente à porta.
02h54- Camila escutou um barulho na porta e fingiu dormir.

Parte 4 – O encontro.

Camila ouviu cada passo de Rafael até chegar a porta do quarto. O percebeu desligando a televisão e acolhendo-se ao seu lado. Quanto ela a abraçou, teve uma desmesurada vontade de dizer a ele que já sabia de tudo, mas não conseguiu, principalmente pelo fato da embriagues de Rafael, seria simplesmente inútil. Porém, quando ele a apertou, sem forças para recusar o afeto, aproximou-se mais dele e lembrou-se das palavras de Carlos: “Camila, conversei com Rafael hoje, ele foi retirar o resultado de um exame e chegou aqui já perto da hora do almoço, e saiu novamente. Camila, ele não pode te dar filhos”

domingo, 9 de dezembro de 2007

Falhos Soldados



Falhos soldados esquecidos tropeçam na estrada. O coração chora, a alma devora qualquer vontade de existir... Eles arrastam suas armas sem munição, a bandeira rota limpa o sangue do homem tétrico que sussurra seu perjúrio para as árvores, e os jovens, fatigados das batalhas, choram por seus amores exilados. Ah! Cede a luz que oscila na névoa, um repouso, um refúgio, uma fuga da marca no peito: uma ferida aberta que explora o coração, uma visão, um templo sagrado onde possam se curar as feridas e sejam apagados os rostos deixados para traz. Que o caminho oprime os envelhecidos da guerra. Os corações que se perderam no tempo do cárcere e não chegam mais a se arriscar na tempestade colorida das armas de fogo.
Vento sopra medo, fica quieta a canção da vitória no porvir, apenas cega o futuro, rasga a farda e abandona a espada, não há mais pelo o que lutar.
Ah... pede um drink no bar, brinda o cavaleiro das sombras. Corrói os corpos e deixa sobre a mesa, o coração de quem morreu pelo menor preço. Os que foram caros, os coloca nos bolsos, e os leiloa logo mais.
Sujas faces, nada limpa tão profunda insatisfação, e como dói o compasso do tempo, nada em que se acreditar para seguir agora.
Uma bala no peito, um rasgo nas entranhas, e tudo esta devastado. Não existem pássaros que cantem o choro, todos se calam, se fecham, gritam com seus olhos o desespero. Ameaça uma lágrima que não cai, duas lágrimas que não caem, mas a cada metro, outro soldado cai, permanece e se apaga, sem rosto, sem amores, apenas a marca de seu ferimento, fratura exposta na história. Eles seguem, vegetam, padecem e somem na névoa quando se apaga a luz.

Sem Reflexo


Uma negra borboleta pousou em meus ombros, deixei que ela me levasse pela dança de suas asas. Ressurgindo pela morte, e não dela. Sem escolha ou força, deixei a cabeça tombar em direção ao peito. Agora os olhos se erguem e após o funeral eu serei a essência dela e ela meu coração.
Nos meus lábios um único gosto, um estigma em minha pele, cicatriz eterna. Tento conter o sangue toda noite, mas a cicatriz ressurge ao amanhecer.
O rubor desaparece. Pálida, não me olhe assim, não me julgue ou me venere.
Esta fera grita, somos espetáculo de Quixote. Adormeço como Bela-Adormecida, meu sono não tem nada de belo, é apenas profundo e denso.
Neste cruel pesadelo
Faz-me bizarro com teu veneno
Cria seu filho em meu ventre
Adormece-me com teu zelo
Pinta meus olhos de negro
Camufla a pele com essas vestes
Está frio lá fora
Também não há pinturas, os desenhos sobre sua mesa estão espalhados e apodrecendo. A poeira tira o brilho do verniz recente da madeira velha. As portas rangem, os galhos batem nas janelas, as árvores ancestrais quase cobrem a visão da igreja, do pequenino mosteiro sobre a colina e do cemitério atrás dos framboeseiras.
As casas amontoam-se e rejubilam nos interiores chamas alaranjadas como grandes flores. O ar tem vários cheiros, o café do bar decadente na entrada desse prédio velho, o vinho aberto sobre a mesinha ao centro da sala, quase posso jurar que este novo cheiro delicado, suave, “úmido”, de uma doçura quase acida e refrescante seja o cheiro do sereno.
Sinto as costas rasgarem de dentro para fora, onde esta sua mão para segurar a minha? Você demora da caçada, eu volto a regurgitar o sangue. Sinto muito frio. Estigma cada vez mais aparente em minha pele. Asas de borboleta. Estou com frio.
Sem orgulho rastejo, entra a essência da borboleta pelas minhas veias, o vestido branco enegrece, sinto o sangue escorrendo em minhas costas, agarro-me no grosso batente da janela, tudo aqui é desumano, turvo, embriagador, céptico, assustador, hediondo, sujo, velho, decrépito, belo.
Uma grande sombra me cobre. E não há reflexo meu no espelho...Onde esta você para segurar minha mão, estacar meu sangue, e me segurar com seus braços fortes?
Sombra negra. Grandes asas surgem e tampam a lua. Torno-me vagarosamente esta borboleta enquanto a dor me trucida. E, estas grandes asas que tampam a visão para a cidade, eu sei, você ira chegar.
Neste cruel pesadelo
Faz-me bizarro com teu veneno
Cria seu filho em meu ventre
Adormece-me com teu zelo
Pinta meus olhos de negro
Camufla a pele com essas vestes
Está frio lá fora.

sábado, 21 de julho de 2007

Para onde as flores vão no inverno

"Como uma furiosa serpente a corrente dos acontecimentos devorou meus anseios e esperanças, uma a uma, minhas vontades foram oprimidas. Porém confesso minha culpa neste tribunal – onde o ar rarefeito me sufoca – eu deixei que elas se calassem. Sei o destino ao qual pretendo chegar, conheço minhas sinas futuras e os pecados de meu passado, mas sempre parece haver uma curva onde não devia existir. E por que eu volto no tempo? Talvez acredite que relembrando, se reviva e assim, talvez exista algo no passado que eu possa mudar: um livro que eu não li, a letra de uma música que eu não entendi, uma porta fechada, uma janela aberta.
Tudo foi morrendo, e as flores no jardim eu parei de regar.
Nem mais pessimismo!
Mas remoer-se todos fazem, os indiferentes, os desiludidos, os suicidas, e eu não serei mais uma que nada acrescenta.
Quando achei que todos não reparavam, descobri que alguém se importa.
Por este motivo (e na esperança de me tornar quem realmente sou) dedico a beleza de uma filosofia de vida – que pretende em sua natureza revelar o divino de cada sentimento – aos olhos de uma criança.
A pedido de uma grande amiga."

 *

Quantas framboesas! Muitas, incontáveis e inexplicáveis.
- Mãe – perguntou Lorena a sua mãe que fazia um café fresco naquele entardecer - Para onde as flores vão no inverno?
O cheiro do café que mãe de Lorena fazia, preenchia não só a cozinha, como a sala, os quartos, a casa inteira cheirava a café fresco.
Sentada à mesa da cozinha, Lorena entediada de treinar sua caligrafia, fazia desenhos de flores no pé das folhas do caderno. Olhou mais para o meio da mesa e viu seu giz de cera espalhado junto com folhas em branco. Preparava-se, emocionalmente e com cautela, para deixar o caderno e se por logo a pintar. Mas sabia que ao fazer isso levaria um pequeno puxão de orelhas por não ter terminado a lição, achou melhor conter essa vontade. E foi neste suspiro de quem sabe que deve esperar o final de semana para ir ao parque, que Lorena pões os olhos sobre uma antiga foto amarelada de seu avô, pai de seu pai, falecido há pouco tempo. Lorena não saberia dizer o tempo exato (arregalou os grandes olhos castanhos sobre a foto) mas sabia que era recente pelo tamanho da dor que ainda sentia.
Lorena lembrou que as morriam no inverno, ligando assim a idéia da perda recente. Havia sido o inverno de seu avô.
- Mãe, para onde as flores vão no inverno?
A mãe de Lorena estranhou a pergunta. Sentiu pela voz da filha que não era bem isso que ela queria saber.

Ah!O cheiro de café por toda a casa. Na sala o rádio ligado com o volume baixo não deixava o silêncio reinar. O locutor tinha uma voz grave e macia – Voz de travesseiro, parece que ele fala no nosso ouvido, dizia sua mãe – Desde então, quando durante a noite Lorena contava seus segredos para o travesseiro, era com essa voz que ele respondia, aconselhava e conversava com a pequena.

A mãe de Lorena serviu-se de café, em silêncio virou-se na direção da filha, cortou um pedaço de bolo e passou nele um pouco de geléia. Sentou-se a mesa. Percebeu que Lorena arregalava os olhos sobre a foto do avô, deu um suspiro e Lorena pensou que aquele suspiro era diferente, não era suspiro de quem espera para ir ao parque, era outro suspiro. Era suspiro de pesar.
A mãe de Lorena bebeu um gole do café já adoçado, engoliu, continuou sentindo o gosto. Ela disse a Lorena, com um doce sorriso, que as flores iam para o céu.
Mas para Lorena, isto não fazia muito sentido, a única coisa que lhe importava era a dor da saudade, aquele vazio imenso que seu avô havia deixado. Quis saber o que fazer com a saudade, ela queria parar de sentir dor, não queria mais que lágrimas caíssem antes do sono.
Olhou em volta como se tentasse descobrir algo, nas paredes e em sua volta, que lhe fornecesse meio de diminuir sua dor. Assustada percebeu que até as flores do pequeno vazo na sala haviam morrido. Viu na estante fotos de parentes que não estavam mais com eles.
Na sala, Lorena ouviu um barulho novo, seu pai chegava cansado e com os passos vagarosos. Apesar de jovem, seu pai era muito pálido e magro, o que lhe tornava extremamente parecido com seu avô.
Mal seu pai acabava de sentar no sofá de estampas gastas, Lorena largou seu caderno e foi ao seu encontro. Por alguns segundos permaneceu imóvel, bem a frente de seu pai, seus olhares se alto sustentaram. Estáticos! Lorena temerosa por achar que poderia estar próximo o inverno de seu pai e este confuso e atordoado pelo semblante da filha.
- Eu não quero sentir saudades de você, pai! – Disse Lorena quase me lágrimas.
Vagarosamente deitou-se no colo do pai, segurando com força sua camisa, se acolheu naquele canto sagrado.
O pai de Lorena, curioso e comovido pela demonstração de carinho da filha, a abraçou e do cansaço passou a uma grande calmaria.
Lorena acabou perdendo a noção do tempo em que estava naquele colo e naquele abraço quente. Pensou, formulou muitas questões e idéias sobre a partida, sobre sentir-se sozinha, sobre o choro – Mas nós não enterramos as flores!- murmurou ela. Descobriu que seu pai era o botão de seu avô, ela seria o mesmo de seu pai e um dia teria seus botões.
Fechou os olhos com força, como se assim agarrada ao pai, ela pudesse evitar que o inverno chegasse.
A noite ficou imensa lá fora, e logo estava dentro de sua casa. Sua mãe sentou-se ao lado dos dois e finalmente a pequena adormeceu.
A manhã seguinte também amanheceu fria, mas algo havia mudado.
Bem quieta foi até a cozinha, pois seus cadernos ainda estavam sobre a mesa.
Encheu um copo com leite, passou a geléia de framboesa em algumas torradas e começou a escrever:
“Oi vô, ontem eu descobri para onde as flores vão no inverno, elas vão perfumar o céu! Mas eu descobri que nós, aqui na terra, podemos sentir ainda o perfume das flores com a lembrança. Mas, vô, a lembrança não é a mesma coisa, por isso eu chorei muito, eu senti muita falta, eu quis que meu inverno também chegasse.”
“Fiquei com muito medo de perder outras flores, e nada eu poderia fazer para impedir isso. Mas foi quando abracei meu pai que descobri a terceira coisa, que sem dúvida é a mais importante: quanto mais eu sentir o perfume da flor, mais forte a lembrança dela ficará na memória.”
“Eu acho que a dor, a tristeza e a saudade, apesar de dolorosas, são importantes, pois assim, vô, eu sei o quanto as flores são importantes na nossa vida, e só o que eu não quero é me arrepender de não ter olhado para todas elas, que todos os dias, de graça, me oferecem o colorido da vida e o cheiro bom das manhas.”
Lorena dobrou a carta, andou com os pés descalços de menina sapeca até a foto do avô que já havia voltado para a estante, deu um beijo na foto e guardou junto à carta.
Na semana seguinte, Lorena não quis ir ao parque, fez com que sua mãe levasse-a até o túmulo de seu avô. Lá, ela plantou a semente de uma flor amarela e prendeu, na lápide, a carta com a cera da vela.
Lorena nunca explicou sua pergunta, mas para ela já era o suficiente saber o que fazer da saudade e da falta que as flores fazem no inverno.

terça-feira, 1 de maio de 2007

Anjos


Foi a primeira coisa que nós vimos, descendo do céu estrelas cadentes durante o dia.

Anjos
Os anjos estão caindo, meu amor, estão perdendo altura, suas asas tornam-se granito aos poucos, nós não vemos saída, sua luzes cintilantes estão nos cegando, seus gritos de dor estão rasgando nossos ouvidos.
Querido, chovem asas de borboletas sobre nós.
Em algum momento eles ouviram o chamado, nós corremos para as catedrais e para os castelos: “Vamos nos abrigar do vento e da tempestade, os anjos estão caindo sobre nós”.

A queda
Estamos correndo em círculos, estamos perdendo a guerra, eles caem sobre nós, seus corpos nos pulverizam, e na agonia de planar por mais alguns estantes o balançar de suas assas levantam os furacões da terra.
Vamos nos arrastar como vermes ao horizonte, nos manteremos cegos, surdos, como também nossos gritos rugem em uníssono. Temos medo, o pavor congela nosso rosto, esta frio no paraíso desumano das criaturas de sonhos, esta quente como no inferno, adrenalina, esta nevando cinzas... Abrace-me, estou com medo.
Caindo...

Inferno
Vamos nos esconder no inferno, vamos nos trancar da luz resplandecente que desce sobre nós lá fora. Vamos nos enforcar com lágrimas, jogamos fora o cálice da esperança, não há mais vinho, não há mais pão, vamos nos sufocar, vamos pendurar a corda.
“Desça pela escada de mármore, desça criança, my moonchild, de me a mão, segure pelos corredores, guie-se pelo odor dos jasmins, desça”.
Nós não precisamos entender, o grito de dor dos anjos...Seus corpos lá fora estão sangrando, nós estamos morrendo em desalento, nossas mentes estão sangrando.

A Mansão
Qual jardim nos pertence? Qual crime estamos cometendo? Qual castigo é meu castigo?
Pelo portão, vamos correr, atravessar entre as árvores, pelo caminho de pedras, até a porta da mansão. Bater na porta de cedro, depois de passar a fonte. Corra eles estão caindo. Truculentos e pesados corpos sobre nós, morrendo embaixo dos anjos, esmagados.
Sua perna esta quebrada, segure minha mão, não vou deixar você aqui para morrer. Agüente mais um pouco... Sim! Minha cabeça esta sangrando, mas não há tempo agora, só mais alguns passos, até já vejo a fonte, só mais alguns passos. Por favor não pare, não solte minha mão, só mais alguns passos.


Relatório (Parte 1)
(Barulho de máquina de escrever).Nunca foi documentada uma guerra onde tivéssemos tanta certeza de ter perdido-a antes mesmo de ter começado, quem nos mata, pobres anjos para quem rezamos, não tem escolha à não ser cair sobre nós, destruir nossos lares, nossas famílias, nossas flores. Eu prefiro não correr, prefiro meu último gole de cafeína e minha velha máquina de escrever (não temos mais energia ha algum tempo desde que eles chegaram).
Como nunca fiz nada em favor da humanidade e ontem eu jurei para alguém que eu poderia ser diferente, esta é minha contribuição.
Não posso dizer em que parte do mundo isto começou, aparentemente a energia que eles emitem causam alguma espécie de “pani” nos nossos aparelhos elétricos e interferências em linhas telefônicas, ondas de rádio e aparelhos de televisão, ou seja, primeiramente a região afetada fica incomunicável com o mundo. Quando chegam um pouco mais próximo é sua luz cintilante (e bastante fosforesceste)que nos ameaça e queima nossos olhos. Aqueles que se encontravam ao ar livre admirando o espetáculo daquelas estrelas à luz do dia foram os primeiros a sofrerem os efeitos dessa luz, obviamente os próximos tentaram tampar os olhos e cobri-los de alguma forma, foi em vão, um a um ficaram cegos, houve aqueles infelizes que, assim como eu, tiveram só uma parte da visão danificada podendo ver, apesar de tudo, com clareza o que se segui...

O Forte.
Talvez agente sobreviva, respirando fundo, aqui dentro estamos seguros, eles não são tão grandes para destruir esta construção...Talvez sejam...Mas eu confio, eu acredito que nós vamos escapar vivos, sei que esta doendo, a gente tem perdido cada vez mais sangue, posso sentir, as ataduras vão funcionar, só não podemos desmaiar.Ficaremos pelo menos com nossa voz e nossos ouvidos, vamos poupa-los.
Isto é um Forte, sobreviveu a tanta coisa, séculos e séculos esta construção esteve de pé, protegeu reinados, crenças, povos inteiros puderam contar sua história.
Acredito que depois de tudo, outros também terão sobrevivido, acredite em mim (silêncio).Você ainda esta sangrando muito?(silêncio) Você esta me ouvindo?(silêncio) Você pode falar?(silêncio) Será que sou eu que não ouço mais? (silêncio) Você esta aí?(silêncio) Esta me ouvindo?...(silêncio).


Cadavérico
Já que me levaram a visão e os ouvidos, poderiam ter me levado também o olfato. Eu sei quanto o horror esta próximo pelo cheiro que vem dele...Sangue, fumaça, óleo e gasolina dos carros, adivinhe quem vai provocar um incêndio? Alguns corpos começam a feder. No começo tentei me guiar pelo olfato apenas e fugir, mas tudo parece em vão, este ar cadavérico vem de todas as direções, inclusive do alto e de baixo, até mesmo tive a impressão de estar pisando em algumas pessoas, se estivessem mortos não faria muito diferença, se estivessem vivos se moveriam, mas e se só tivessem forças para gritar, eu andaria sobre eles aumentando sua dor e não os ouviria, nada de ossos quebrados, nada de pedidos de ajuda, nada.
Até o momento meu corpo não sofreu nenhum arranhão mais não tenho condições de direcionamento para fugir...Imagino que há muitos que ainda tenham uma parte da visão ou ouçam um pouco e estejam tentando fugir.Que ironia anjos.Tudo esta cadavérico... Principalmente meu peito, meu coração e o cheiro desse momento infinito que parece atravessar e devorar séculos em alguns segundos.

Relatório (parte2)
Curiosamente o corpo dos anjos parece ter ficado sensível a nossa atmosfera, ou poluição, seus corpos grandes (cada anjo tem cerca de 70 a 90 metros) parecem que definham mais rápido, sua decomposição é mais rápida, aumentado o odor de putrefação no ambiente.
Se alguém for ler esse relato talvez entenda porque a pressão exercida coma queda dos anjos é tão terrível. A abertura de suas asas podem chegar a 170 metros de comprimento. Quando destroem prédios, florestas, ou quebras de grandes rochedos nas praias não parecem nada divinos.
(o restante ainda será postado)