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sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Manchas

Erguer-me do cansaço passado.
Respirar o ar solitário da manha.
Poder ouvir o cantar dos pássaros.
Pensar no que haverá de bom amanha.

Esquecer que um dia existiu amor,
Esquecer a dor, o calor.
Pensar que o céu ressuscitou agora.
Só esquecer a noite – fixar-me n’aurora.

Minha alma limpar,
Meu coração emudecer.
Esquecer que um dia, ao orvalhar
Ao deixar-me fez-me tremer.

Céu, sua infinita lembrança.
Noite, onde seu coração pulsava
E gritando em minha alma lança
Nódoas que na memória são asas.

E agora escrevo tais versos,
Sujando com meu batom seu espelho.
Minha poesia pobre: sentimentos secretos,
Seu adeus podre e meu batom vermelho.

Quando chegar terá que limpar cada rastro meu
O batom, o suor, o cheiro em roupas suas,
As cinzas dos incensos,
As garrafas de vinho que bebeu,
Enquanto tentarei esquecer, bebendo pelas ruas.

Mas em sua memória esta a nódoa sanguinária
Palavras marcadas, difíceis de apagar.
Os beijos quentes numa noite solitária
Sepultados no adeus do orvalhar.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Asas



Eu sinto:
Diante a memória infinitos rabiscos da mente cansada e só.
Bateu na janela da minha alma o vestígio do vento do seu sorriso, e deste lume que é seu arfar nas tardes amareladas, eu tentei enxergar meu caminho.

No despencar da noite me fugiu, da razão e destes olhos cansados, as fachadas e as ruas, tudo que antes reluzia calmo e quieto, tornou-se pântano incerto.
Mas amanheceu, e novamente Apolo me toma no colo, e o que vejo é a vida de volta às minhas mãos.
E o vento que bate nessa manhã em meu rosto, é o vento do recomeço e das memórias rudes adormecidas.

Eu vejo:
Páginas amareladas, fotos velhas, os livros tem algumas pontas dobradas.
Uma boneca vestida de branco, um incensário, uma caveira. Alguns cadernos, uma máscara, cd’s, um grande espelho.Um travesseiro, o vento lá fora, o outono e um sorriso.
E se eu pudesse escolher, me recolheria dos céus em um colo lascivo.

Se eu tenho asas? Apenas não me confunda com um anjo... Definitivamente.


Imagem: Pintura de Claude Monet
Impressionismo

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Coisinha Maluca Chamada Amor


Um solo de guitarra dançante soa de dentro da casa, chove, mas esta quente.
Quente o bastante para gostar dos respingos da chuva no rosto trazidos pelo vento.
A lua brilha alto, maior que as nuvens, maior que eu.
Bem maior que eu.
Eu olho envolta a tento a tudo que pode acontecer, mas me divirto. Não preciso de esforço.
Olho para tudo, percebo tudo, mas nada me impede de “rock and roll”.
Quando ela não olha, eu aqui na varanda, paro sobre as patas traseiras e balanço as patas da frente como se eu tocasse a guitarra.
Sou o músico das caladas da madrugada, dos becos, botecos e da bateria da lata de lixo.
Depois do solo volta a cantar:

“I gotta be cool relax get hip!
Get on my track's
Take a back seat (…)”

A música continua embalando minha diversão. Meu rabo meche de um lado para o outro.
Eu não me sinto sozinho essa noite. Na verdade, eu nunca estou sozinho.
Sou uma parte da loucura que é ser filho da noite.
Meu pelo branco não me camufla, mas minhas manchas são meu charme.
É só eu chamar que minha garota estará lá.

“Until I'm ready (ready Freddie)
Crazy little thing called love”

A música continua, e eu balanço sempre mais.
A voz inconfundível, a melodia perfeita. Eu me divirto e canto.
Não é preciso estar apaixonado para se estar apaixonado.
E eu sou daquele tipo que sempre se apaixona, e me divirto.
Um típico boêmio incontrolável e conquistador.
Eu tenho tudo que preciso. A música continua comigo.
Rodando, rodando. É só o começo do meu embalo.
Meu embalo maluco onde toda noite é uma sexta feira à noite, até sextas feiras de chuva.
E eu continuarei dançando, balançando o rabo e cantando enquanto tiver música, ou até que ela venha até aqui, me pegue no colo e me faça carinho debaixo no pescoço.
Minha vida é essa, sinto muito por você amigo.
Yeah.

“This thing called love I must get round to it
I ain't ready
Crazy little thing called love”

A noite é todo meu pecado, e eu adoro esse ritmo.
Enlouqueço no balanço, a noite cada vez mais louca.
Yeah, eu não estou preparado, querida. Mas quem liga?
Minha “motorbike” é a vida, e eu tenho sete.


segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A primeira canção ao verão.

O sol que aquece as costas, a pele através dos vidros e dos enrustidos compartimentos onde se resguarda a empatia à vida.

E na noite clara de lua gigantesca sombreada aos flancos pela luz vibrante feito espelho solar os beijos se derretem mais rápido.

Estrelas imensas dividem espaço com as nuvens carregadas e brincalhonas.

Rápidas tempestades fingem refrescar o calor fervoroso que é o ventre do dia.

O amor ganha ares de libidinagem e exaustão, relâmpagos odores da tarde e da calçada cheia de pegadas apressadas.

Rastros buscando um vento para aplacar de leve o suor. A sede que vence a fome. A busca dos lábios e línguas por saliva (e por saliva alheia). Os corpos que vencem distância e se distanciam.

Finalmente as cores mergulhadas nas águas translúcidas revelam-se alegres e leves, como as ondas verde-azuladas, como as nuvens brancas aveludadas e como os pés
descalços, os cabelos soltos, os sorrisos jogados, olhares reluzentes e que sempre arriscam-se mesmo desviando-se dos raios do sol.

Sorvetes pingam sobre os colos desarmados. Crianças ralam os joelhos, sangram, e com a ponta do dedo provam do sangue: caretas surgem como limonada sem açúcar.

Tomar banho de chuva, gargalhar até perder o fôlego, deitar na rede pra fazer parte do ar quieto e amigável.

Maldizer os ternos, os sapatos, o ar condicionado quebrado, as super lotações das conduções e o transito do feriado, e mesmo assim, correr de abraço ao céu azul cheio de vida que diz bom dia.

Esquecer o guarda-chuva, esquecer do tempo, esquecer a dor e os problemas só pra deixar-se fazer nada enquanto o hálito morno depois das águas lambe seu pescoço, costas e onde mais gostas de suor desejem deslizar.

Sonhos intensos se transpassam e se revezam com a insônia.
O cheiro do tempo que muda, do asfalto que muda, da pouca grama que muda.
Das esperanças e das energias renovadas em dualidade com o corpo amortecido e os desejos de preencher cada noite quente de lua cheia com a grandiosidade de um viver intenso, tão intenso quanto o sol de verão.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

As fitas de Pandora

Ao abrir os olhos no vácuo da quietude, deparamo-nos com as cortinas do tempo turvando o ar e hipnotizando as vontades.
Tudo parece estático, branco, invalido e triste.
Uma tristeza longa no peito, dias normais de entardeceres solitários. As lágrimas que não vem aos olhos, mas não por falta de vontade.
Frio, mesmo sem vento para eriçar os pelos da pele, o peito sozinho infla e dissolve novamente o oxigênio no ar...
Inspiração e expiração na tentativa pacífica do corpo de reagir à tênue apatia dos sentidos.
Uma neblina rasteira, manipuladora e vagarosa se aproxima dos arredores da alma.
Uma voz, um canto indecifrável chora vindo da nuca, de trás dos ouvidos, de dentro dos olhos, da garganta incrédula e incapaz.
Os ponteiros do relógio consomem cadavéricos as boas memórias, as vitórias, e regurgitam pesares.
Olhares vazios se cruzam, a natureza retrata no empalidecer dos concretos e dos galhos ríspidos e das estatuas solitárias a catatônica sinfonia da agonia.
As pequenas velas da esperança não são suficientes para aquecer os membros em busca de novas caminhadas que façam sentido...
... os passos se perdem nas trilhas da insegurança. Uma loucura dada pelas mãos da impotência.
Passados remotos guardam males e perdas ainda presentes e inertes nos ombros.
Os joelhos se embaralham, as mãos sem atrito escorregam nos vãos que margeiam a razão.
As horas demoram arrastadas, sádicas em torturar seus prisioneiros.
No horizonte inalcançável o outro silêncio, o silêncio do alívio.
Entre os rastros deixados para traz sorrisos periféricos e audaciosos... incrédulos, mas não tão firmes.
Os sons se emudecem aos ouvidos alquebrados diante a ambigüidade: turbilhão de densas emoções versus abismo e limbo que absorve os possíveis sabores da vida.
Os ritmos seguem o compasso denso e lerdo da sofreguidão...
Quanto mais perto de si mesmo, mais longe de si, e não mais. Uma estrada em círculos... a revisitação ao conhecido desassossego.
E se no susto, venta, o gélido soprar do males da alma arquitetam a dança mórbida das fadas espectrais da humanidade.
A tristeza se confunde com melancolia, e a melancolia se dissemina como garoa fina.
Os rumores da subjetividade voam longe, ganham as barreiras da visão, atravessam os lençóis transparentes das gotículas que vem inutilmente das nuvens na tentativa de afagar as cicatrizes.
Mas logo também se vai... Mas ela fica, amiga inseparável das infelicidades e do auto-reconhecimento deste ser humano que é falho. E que por ser falho, se martiriza e se angustia.
E vejam, lá estão as fitas...

Baseada no video de Larissa Anzoategui
Angústia

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Ao Leito

Perdi as contas de quantas vezes tentei matar você em mim. Hoje sem forças, e de joelhos eu desisto de tudo. Sem forças, eu não me agarro em nada, tudo que passa diante meus olhos passa, e nada que o rio me trás eu tentarei alcançar. Se chover, da tempestade eu vou viver. Caso a ventania me levar pro sul, este será meu norte e nada eu vou prever. Se amanhecer, querido, vou fotografar na memória o roxo que nasce vagarosamente no horizonte, se vier com sol ou neblina, é desse dia que minha sina vai viver. Por que se eu morrer – ah, se eu morrer! – não vou ter comigo nenhum pesar a que recorrer, a não ser as barreiras que nunca de mim dependeram para serem vencidas. Por que, meu amigo, eu já perdi as contas... e as saídas

domingo, 4 de julho de 2010




Se o coração aperta, angustia-se e sofre em cada momento de silêncio entre os espaços truculentos dos sons da rotina, eu me perco.
Se eu tenho tantos motivos, e nada me fortalece, eu padeço e quero desistir.
Mas não me cala a alma, o coração grita cada vez mais, enquanto nas esquinas das emoções eu procuro rir com o andar calmo da natureza do tempo, e suas brincadeiras com meus sonhos.
E novamente eu me perco.
Choro um choro afogado nos erros, nas incertezas e nas incapacidades de meus sentimentos.
Esfrio-me, me congelo, busco a distância, e me arrependo.
E outra hora não mais, e logo mais volta, e se vai. E não sei...
E de repente eu apenas deixei de acreditar.
E o grito do coração quer sobrepor-se ao grito da alma, que por sua vez, quer sobrepor-se ao grito do coração, e meu raciocínio falha.
Eu me ajoelho.
Caio nas lamentações inúteis do vazio, do não concreto, do não dito, mas arrebatadoramente sentido, atravessando o peito, plantando as dúvidas, as vontades tolas e as vozes em ecos do futuro, do passado, do medo do presente.
E deveria ser tão fácil, mas algo me fez (nos fez) tropeçar no meio do caminho.
E agora eu vejo outros caminhos, de passos solitários que visam horizontes diferentes.
Ao menos por enquanto, meu coração quer ficar quieto, quer acalmar-se para estancar o choro e parar de gritar.

quarta-feira, 23 de junho de 2010



É uma pequena palavra
Que não chegaria a ser nem mesmo uma pequena frase, estrofe, parágrafo ou texto.
É quente, doentia, cruel, dilacerante, empolgante, revigorante, intimadora, destruidora, construtora, forte, louca, desumana por ser humana de mais.
Detém o poder do prazer e de transformar sonhos em realidade.
Poderia ser “amor”, mas na verdade é “Coragem”.

terça-feira, 23 de março de 2010

Outono de 2010





Eu preciso te dizer outono, mais uma vez, sobre meu amor por ti.
Sobre esta vontade de usar cachecol ao vento batendo a sola dos coturnos sobre as calçadas cinzentas de minha cidade caótica e encantadora, também embevecida em ti, outono (feito eu nos aromas de vinho ou cafeína).
Entre tuas folhas que logo mais caírão amareladas, aquele amarelado de foto, de livro, de folhas de caderno. Junto com cheiro bom de se embalar na ventania do tempo. Ser simplesmente este tempo amigo e me confortar neste presente querido e venturoso. Alimentando as certezas de um momento tão mágico que é esta simplicidade, e aquela vontade enorme de no futuro ter colo. Um colo amigo e confortável que não prenda.
É chegada a estação de beber café, cappuccino, chá quente.
Estação de ir ao cinema de filmes europeus. Estação de amar.
É um prazer quieto e melancólico de estar tão consigo mesmo, e quase completo nos afazeres bons do cotidiano, mas sem rotina, sem sina, sem dificuldades.
É estação de ouvir música boa, ler bons livros.
Escrever os sentimentos e descrever os momentos pintando e reproduzindo tantas cores calmas no céu. Tudo um pouco aquarela.
O balançar das árvores, em breve só galhos.
O cheiro de asfalto molhado na cidade, e terra molhada do quintal.
Vontade de abraçar todos os amigos.
Sempre quando chega o outono, parece que volto pra casa. Essa minha casa que sou eu nesse estado tão puro e verdadeiro de estar comigo.
Tudo enquanto o mesmo pincel se molha na garoa e mancha as cores no papel texturizado, tato mais delicado e atento. Tato para abraço, para lábios, para papel, para outra pele, tato para pintar.
O azul e o branco acinzentados são quase a mesma cor.
Eu vou sujar as pontas dos dedos com essa aquarela.
Seja bem vindo mais uma vez querido Outono.
E estou tão feliz de estar aqui para lhe receber.
Anjo quieto, pálido e confortável, peço que me inspire, que eu possa respirar de ti, me encher com tua poesia, com tua lasciva tênue. Com tua arte que é nos preparar e nos causar surpresas.
Se tu fosses homem, outono, eu ser-te-ia fiel a amar apenas ti para sempre. Sendo este anjo de pintura de aquarela envelhecida como se apresento, sou-te grata, apaixonada e eternamente uma aprendiz.
O dia que eu for como tu, Outono, eu sei que saberei o que se pode chamar de felicidade.

Imagem: A Noiva Cadaver, por poesia melancólica..

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Para dilacerar a raiva, para cortar os pulsos, para se fingir de morto e apagar as verdades.
Esquecer e voltar ao caminho, voltar para a estrada, mas nunca retornar ao ponto de partida ou revisitar a estrada já deixada para trás. Mas é só voltar pra estrada. E foco.
Gasolina na moto, no conversível, enfim, vento no cabelo, sol sobre a nuca.
Eu e o horizonte, e isso é bom.
Um mundo todo novo pra desbravar. Árvores que estão ao nosso lado, leve sombra, muito verde, e vamos em frente.
A luta não pára, mas agora é hora de sorrir, de gargalhar do tempo e das armadilhas e urrar cheia de calor e loucura no peito.
Hora de se embriagar do caminho, esse é só mais um dia, e que maravilha que é só mais um dia.
Ao menos, dessa vez, eu sei que existem outros campos que eu posso me desbravar sem medo!

sábado, 30 de janeiro de 2010

Contar trovões.

Incredulamente eu me ergo e estou rindo
Eu não sei o que é o amor.






Acredito que um dia, já a algum tempo, eu soube, hoje eu apenas desejo.
Eu desejo poder me apaixonar mais uma vez e tenha tantos motivos para amar que possa enfrentar por esse amor grandes tempestades, os mais terríveis furacões, caminhadas escuras por densas e funestas florestas na busca de uma pequena casa humilde, onde haja uma lareira acessa e um vasto tapete e um colo.
Eu quero ouvir todas as músicas de amor e lembrar de um único rosto e sentir orgulho do que eu sinto.
Quero poder olhar nos olhos tantas vezes e ter a certeza de que nossos olhos conversam livremente e se desnudam de sinceridade e veracidade. Se entendem. E tantas outras vezes eu quero que possamos discutir sonhos, revoluções, teorias e tantos ideais que no final, possamos estar maiores e mais ricos, riqueza que é a evolução.
Quero também cantar junto os mesmo refrões, e rir de nós quando errarmos o tempo da melodia.
Quero desligar a TV no domingo pra ficar olhando o tempo, deitada em um colo quente e desnudo diante a janela, sim, só pra ver a manhã virar tarde e a tarde virar noite.
Alguém pra dar risada, pra cuidar das cicatrizes, pra pedir abrigo e pra fazer valer a pena sonhar.
Eu sonho com alguém pra esperar nos dias de chuva.
Alguém pra contar trovões.





*imagem: Angel Sanctuary

domingo, 27 de dezembro de 2009

Mar




Se eu fechar os olhos agora eu vou poder sentir a água cristalina e fresca em meus pés.
Se eu então, ainda de olhos fechados, olhar para cima vou poder sentir o brilho do sol e se eu também abrir meus braços, até mesmo o vento virá.
Mas eu posso continuar aqui, apenas refrescando meus pés, e certa vez ou outra passará por entre eles um pequenino peixe amarelado para me fazer cócegas.
Então eu sorrirei.
Não me importa muito se eu estiver nua em uma praia deserta, ou com um longo vestido branco já um pouco molhado pelos respingos levados e salgados das pequeninas ondas que já se quebraram nos rochedos longínquos ou nos corais coloridos.
O que importa mesmo, é o vento, esse sol leve que não agride, e principalmente a sensação da translúcida água nos meus pés, e às vezes, até calcanhares.
Sinto ainda, que a areia sob mim vai arrastando-se conforme vem e vai cada onda, e eu poderia muito bem ir com elas.
E tudo isso tem um nome muito bonito: “Felicidade”.
Eu posso ouvir cada uma das vagas, as pequenas e sapecas, como também as grandiosas pedindo atenção.
Tudo tem cheiro de maresia, o perfume da liberdade.
E essa é a mais bela composição. Eu finalmente me sinto livre.
Parte desse oceano, dessa praia, dessa confortante solidão e quietude.
Mãe como tantas mães da natura.
Alma, corpo e espírito. Sem separação entre coração, mente e físico.
Sim, e eu finalmente estou livre, só com essas sensações da puríssima água nos meus pés.
Fique um pouco em silêncio comigo. É ainda o som e a frescura das vagas brincalhonas.
Frescor e liberdade, eu rio à toa.
Maresia e água refrescante respingando em minha pele.

E no fim, é hora de abrir novamente os olhos.
Nada de mar, areia, vento ou pés molhados.
Meia noite, 56 minutos e segundos para quase ser meia noite e 57 segundos.
(e eu estou sonhando com um belo céu azul, uma rede e aquela sensação de dona do tempo)


Quem espera a salvação das máscaras?
Quem pode ouvir cada suspiro louco, cada angustia mórbida, cada som mudo de gargantas cortadas?
E nós não parecemos ter escolhas.
Hoje eu queria poder mais uma vez abandonar todas essas verdades que acorrentam nosso pés fundo na lama.
Eu almejei castelos longínquos, onde pudéssemos dançar sob a sombra de seus portões doces músicas.
Eu sonhei com sorrisos largos e amores livres de inseguranças e receios.
Amigos para dividir o pão. Livros para ler, histórias repletas de fantasias para contar.
Mas todas as minhas escolhas me levaram para longe, mas não tão longe como eu queria estar.
Queria poder dormir em uma nuvem, e quando acordada pelo sol, eu pudesse mergulhar desta imensidão azul para um grande mar cristalino e profundo.
Quis tantas vezes a liberdade dos pássaros mas não sou capaz nem mesmo de escolher entre os sonhos e as boas certezas do hoje.
E só o que resta é um belo baile, com luzes flamejantes, uma música embriagadora e passos compassados nos momentos apertados da noite.
Mas pela manhã, nós teremos que deitar as máscaras de lado.
E pensar, que minha fraqueza sempre me impede de alcançar o caminho para as verdades (da alma).

sábado, 26 de dezembro de 2009




Eu sou uma espécie de navegante sem sentido que grita no escuro com os lobos famintos da insânia.
Eu sou tanto o grito, quanto o lobo, quanto a noite.
Sou mais que devaneio.
Eu quero destruir os fatos, apagar imagens, congelar a chuva pra criar cacos de vidro e arranhar a tua pele.
Eu quero passar por cima das flores com a minha raiva e a cada segundo sufocar de insônia.
Quero arrancar da carne as marcas e afundar você pra sempre bem longe do meu coração.
Quero te esquecer, dono do meu Medo.


Existiu uma época da minha vida em que eu tinha todas as respostas, tudo era claro. Não havia dor ou tristeza que não pudesse ser enfrentada, mas hoje as coisas são diferentes.
Eu sinto saudades daquela minha grande coragem, sinto falta daquela sensação de estar fazendo a coisa certa, de estar no caminho certo, com as pessoas certas, com a pessoa certa.
Sinto falta daquela minha garra e daquela vontade louca de ganhar o mundo, agora não existe mais isso.
Parece até que é abstinência de anti-depressivo.
E nada me da coragem.
De repente a gente vive de mentira, de insatisfação, de um mundo que não existe e eu preciso me desculpar com as pessoas.
Sei lá, desculpe por tantos problemas que não deveriam ser problemas, tanta raiva inútil que não constrói nada. Antes achei que fosse o domingo, o meu emprego, minha falta de coragem, mas agora parece mesmo que é só a falta de coragem.
Que eu estou toda amarrada nas profundezas das minhas futilidades e não consigo mais me apegar a nada e nem a ninguém, e por isso mais uma vez eu tenho que pedir desculpas.
Quero tomar algumas pílulas e lutar pelo que realmente é valido!
Quero sair essa noite e dançar a noite toda.
Quero me embriagar com a música.
Mas eu não tenho coragem, e acho que vou acabar ficando aqui.
Se um dia você disse que eu era medíocre, acertou.
Eu e meu romantismo inútil e os sonhos que cobrem a vida.






sábado, 2 de maio de 2009

Eu.

Carrego a liberdade em minha voz e meu canto, em minha nudez de preconceitos e máscaras, seguindo os barcos em alto mar e não perco a oportunidade de assitir a uma forte e devastadora tempestade. Sou apaixonada pela força e fúria dos tubarões, e aprendi com eles a defender meus sonhos, minhas crenças e principalmente meus ideais. Consumo apenas o peixe que me é necessário para sobreviver. Aceito meu corpo, minha sensibilidade e meus defeitos... Busco ser feminina e lasciva, tanto quanto forte. Orgulho-me de sempre ter coragem de mergulhar mais fundo sem nunca perder a precisão. E acredito que no mais escuro e denso oceano, sempre haverá peixes fosforescentes e corais para me acompanhar. Solitária, desbravo as ondas e oscilações que o mar me traz, pois sei que se eu estou em meu rumo e seguindo o vento de maresia que escolhi, eu sempre estarei em casa. E hoje, minha casa é o Oceano.
Sereia, pela força de minha alma

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Casa.

Mais um outono chegou e meu maior medo continua gritando, como fazer para não deixar mais um outono escapar?


Quero caminhadas solitárias e melancólicas sobre as flores e folhas caidas no andar contra o vento.
Assim que o frio chegar, um cachecol quente e uma xicará de chá. Alguém que toque uma canção pra me acompanhar. Quero tardes inteiras perdidas e deslumbradas sobre folhas de papel e lápis, e tinta e pincéis.
Caso o sól apareça, quero esmiuçar a coloração amarelo e alaranjada refletidas na parede.
Quero olhar para o topo das árvores e ver aquele verde de literatura.
Um cheiro bom e um bom livro. Ou muitas folhas em branco pra escrever. O silêncio no entardecer e falar sobre poesia.
No centro de nossa grande cidade, cinzenta e apaixonante, caminhar no abraço de um grande amor. Assistir uma peça de teatro e tomar café quente e espumante.
Suspirar.
Longas madrugadas despertas e carismáticas.
Quando se está perdido, procurando um abrigo, eu estou buscando minha casa.
Um lugar que me complete e me faça entender esta vida.
Procuro respostas e me parece que elas se encontram sob uma luz gótica e deverás melancólica. Olho a ventura dos gatos cochilando e percebo como tudo poderia ser mais simples. Mas não é, não é mesmo?
E se fecharam uma oportunidade, de repente não dá mais, temos que nos erguer e construir outra. E como?
A gente nunca sabe o caminho, nunca. Todos, todos os mapas estão velhos, e as estradas estão aí pra cobrir as marcas do passado.
E tudo que eu queria era olhar pela janela e poder dizer que ainda sou uma parte do Outono, mas ele provavelmente não me esperará e eu vou continuar procurando coragem e meios de resgate.
Ah, outono.
Hoje eu me contaminei de minha essencia e me sinto contente e ridícula ao mesmo tempo. Tantos problemas, tantas dificuldades. E como eu faço pra ajudar o mundo?
Vai anoitecer e eu não sei como fazer para recuperar e aceitar a verdade.
.
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. Desenho de Durër - Melancolia.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Aprendendo

Porque teu beijo é o local onde quero aportar, eu não paro na primeira tempestade que parece me levar para longe do teu porto. E nem me intimido diante as noites em que estrelas não catam no céu, e nem nos dias insólitos em que nenhum vento empurra meu navio.







Existem milhares de maneiras de atribuirmos valor, em especial, a algumas pessoas.
Muitas vezes atribuímos valor por alguém pensar como nós, às vezes por desfrutarem de gostos parecidos e outras ainda, por serem incrivelmente diferentes do mundo que as cerca ou do mundo que nos cerca.
Existem também aqueles que valorizamos e desejamos por parecem inalcançáveis, simplesmente por estarem longe. Existem aqueles que valorizamos porque nos ouvem, outros tantos, porque parecem ter sempre um bom conselho na manga. Outros que se mantiveram ao nosso lado por muito tempo, e outros por nos proporcionarem a melhor noite de nossas vidas.
Existem aqueles que sempre nos procuram, e outros que basta um telefonema para que se aproximem.
Existem aqueles que nos dão valor e por isso são valorizados, e aqueles grandiosos com quem sempre nós aprendemos e nos sentimos bem.
Sendo que cada um é importante para um momento de nossa vida, seja esse momento extremamente curto ou, curiosamente, tenha a aparência da eternidade.
Porém, existem aqueles que de tão importantes, precisamos nos afastar um pouco, ou aos poucos, definitivamente ou por alguns momentos, porque esses possuem tantos motivos para serem valorizados e conquistaram um lugar tão grande dentro de nós, que por incrível que pareça, podem nos sufocar.
E, é claro, é preciso aprender a nadar, antes de mergulhar em alto-mar.

Nauta

quinta-feira, 3 de abril de 2008


Eu queria um tempo a mais pra te descobrir, outono. Queria ficar esta tarde toda no teu colo e deixar a chuva limpar meu peito, meu ventre e meus pulmões. Pois hoje, as janelas não serão abertas, eu vou encostar a porta do mundo e mergulhar no meu desconhecido.

“Ponto de ônibus. Ao redor percebe-se um lugar isolado. Chove. Fim de tarde.

Jovem está sozinho no ponto de ônibus. Tem uma mochila nas costas, carrega livros nos braços, o esta rosto abaixado. Parece pensativo e distante. Ora olha na direção da avenida, ora para seus livros, ora para o chão. Parece dizer “não” pra si mesmo com a cabeça. Tem-se a impressão de que um pensamento lhe vem, continua pensativo, e mais uma vez abaixa o rosto. Resolve sentar-se, coloca os livros sobre o colo, olha no relógio e suspira. Treme de frio. Pega os livros e levanta-se rapidamente, dá sinal para o ônibus que pára muito à frente do ponto, corre na direção, um carro passa em alta velocidade jogando muita água sobre o Jovem. Abre o farol, o ônibus segue. O Jovem fica parado na chuva, sem a menor reação. Chora quieto. Dá-se conta dos livros e volta para baixo do ponto de ônibus. Senta-se e espera. Tira a mochila das costas, começa a procurar algo em seu interior, à medida que não acha procura com mais afinco. Retira um saco de pão, olha dentro dele, e amassa-o (está vazio). Enfia o saco novamente na mochila. Coloca novamente a mochila nas costas. Retira do bolso algumas moedas, começa a contá-las, suspira longamente. Os livros ameaçam escorregar de seu colo, na tentativa de impedir as moedas caem no chão. O Jovem rapidamente põe os livros no banco de ônibus e corre na direção das moedas. Sai de debaixo do ponto e recolhe as moedas na chuva.
Sem que ele perceba um senhor se aproxima e coloca o guarda-chuva sobre ele. O Jovem olha agradece com um sorriso tristonho e o Senhor sorri. Jovem se levanta, e ambos seguem para baixo do ponto de ônibus. O Senhor fecha o guarda-chuva e cumprimenta o Jovem com um grande sorriso. O Jovem fica tímido, mas retribui o comprimento, senta-se e volta a contar as moedas. O Senhor senta-se ao seu lado e o observa. Senhor coloca a mão no bolso do casaco, e entrega uma moeda ao Jovem que inicialmente se assusta. O Senhor faz um gesto de insistência, o Jovem arqueia as costas para trás. Pensa, olha para o Senhor, deixa os ombros relaxarem, pega a moeda e agradece com um movimento de cabeça. O jovem coloca as moedas novamente no bolso. Ambos voltam seu olhar para a avenida. O Jovem mais uma vez suspira e lacrimeja. Eles se olham. O Senhor sorri mais uma vez para o Jovem. Eles voltam a olhar para a avenida. O Jovem se levanta, dá sinal. Um ônibus pára, o jovem ao entrar olha novamente para o Senhor, ele sorri, e acena com a mão dando tchau para o jovem.”

Exercício de dramaturgia.

O que você me diria sobre cada um desses personagens?
Um gesto vale mais que mil palavras, ou não?

Deixe seu corpo falar por você.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

À noite



À noite,
Alguém sem nome faz uma enorme falta.
Alguém perdido talvez também se embebede desta melancolia.
Talvez toda nossa poesia seja apenas uma.
Rostos fúnebres.
Máscaras:
Para esconder minha vergonhosa face e meus impulsos,
Para revelar meu interior.
Nada faz sentido quando é dia.
Eu me perco.
Eu me camuflo, me escondo, me mordo, me esqueço.
Suicidei-me...
Agora tento me ressucitar.
Quero as portas do cemitério.
Morta neste abismo, me desça um gole do seu rum.
Fantasma, cante.
A décima segunda badalada que não chega.
Um colo no calabouço.
Suspira este ar gelado.
Envolve no silêncio de seu mausoléu...
Voltar a ser poetisa.
Chora meu espírito com medo de morrer nesta mediocridade.



Poema de abertura da revista eletronica R.I.P., edição 05.